Retrato de Pessoa por Almada Negreiros, para visitar no Museu Calouste Gulbenkian

Dia de celebrar Pessoa

 

Hoje é dia de lembrar, não o tempo em que ainda festejavam o dia dos seus anos “e de não ter as esperanças que os outros tinham por mim”, mas o dia em que Fernando Pessoa partiu, aos 47 anos. Não sei se era sábado, nem se chovia, mas naquele último dia, Pessoa, escreveu em inglês, como que a pressagiar, “I know not what tomorrow will bring!”.

Do futuro nada sabia, mas da morte dizia “entremos na morte com alegria”, e da sua vida, que resumia ao tempo que mediava entre o dia que nasceu e o dia em que morreu, escreveu: “à parte disso, todos os dias são meus.”

E foram.

Dias em que se perdia a olhar o mundo sem horizonte, qual guardador de rebanhos no cimo de um monte, porque na cidade “as casas fecham a vista à chave”.

Dias de olhar de engenheiro desempregado, em pessimismo mergulhado, “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Escrevia, a partir da tabacaria, do outro lado da rua…

Dias de desassossego, “Mais terrível do que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser…” e noites desassossegadas em que o sono era uma benção, “o apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória em ilusão, o não ter passado nem futuro.”

Hoje é dia de comemorar o poeta que tanto escreveu com emoção, mas a quem não se lhe conhece nenhuma paixão. Ainda que eu gosto de pensar que Fernando Pessoa tinha uma amada, a quem não se declarava, como escreveu no seu bonito poema “Presságio”, sobre o amor que não se sabe revelar, “sabe bem olhar para ela, mas não lhe sabe falar”. É que, quem sente muito cala , “fica sem alma nem fala, fica só inteiramente.”

Mas Pessoa nunca esteve só. Viveu sempre com os seus heterónimos, quais amigos imaginários que uma criança costuma inventar, para ter companhia para brincar.

Na verdade, os seus heterónimos mais não são, do que de si próprio uma extensão. É que não se escreve poesia se não se sentir, o que me faz questionar quantas pessoas couberam na vida de Pessoa? E quantas pessoas cabem na vida de um escritor?

Apesar de a cada um ele ter atribuído uma personalidade, uma biografia, um mapa astral, o estilo da escrita é o mesmo, o de um poeta fingidor “que finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.”

Mas além do Pessoa-poeta, Pessoa-escritor, Pessoa também foi cronista e publicitário. Foi nessa qualidade que inventou para a Coca Cola um slogan que hoje ganhou estatuto de expressão idiomática “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Tal como a sua obra, de uma simplicidade desconcertante, de uma profundidade tocante, de uma genialidade estonteante.

Outras frases que tanto utilizamos, e que nem sempre a ele associamos, é o quanto “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, ou quando “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”… Foi também Pessoa que descobriu o sabor do mar, “quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”.

Não sei se no dia 30 de novembro de 1935 era sábado, nem sequer se estava a chover, mas sei que num só dia, numa só vida, é impossível de Pessoa tudo saber.

 

Paula Brito

30 de novembro de 2019

(84 anos da morte de Fernando Pessoa)

Dia de passeio… pela gramática

 

Dizem que a língua portuguesa é difícil, complexa e pouco pragmática, eu acho que é da gramática.

Quem é que se lembraria de dividir as palavras por classes, como se de uma sociedade se tratasse? Há nomes que, se escritos com maiúsculas, são próprios da realeza, outros, de tão comuns, representam o povo com certeza. Depois há os coletivos, e não me parece que exagero, que de tão organizados, devem pertencer ao clero!

A malfadada gramática obriga ainda o português a olhar para o passado como se tivesse que ser classificado. Se os tempos foram bons, é um pretérito perfeito, mas se era infeliz, já é passado imperfeito. Há ainda um pretérito mais que perfeito, muito utilizado na poesia. Quem dera que não acontecesse só na alegoria!

Depois a gramática inventou que a língua portuguesa precisava de estilo, e decidiu criar figuras que desfilam pela prosa com o único sentido de não terem sentido nenhum, se for um paradoxo; com o propósito de aumentar mil vezes a realidade, como se a hipérbole fosse uma verdade; com o intuído de tornar a vida uma viagem pelo mar nunca dantes navegado, como se a metáfora nos levasse a algum lado!

A gramática decidiu ainda que há palavras que não podem andar sozinhas, são as chamadas palavras compostas por duas vizinhas, é o caso de maldizer. Mas há também aquelas que gostam de alguma distância, ou por serem mal-humoradas, ou porque assumem uma justa posição, como amor-perfeito, arco-íris, beija-flor…

O problema maior são as expressões idiomáticas que dão às palavras duplo significado como, construir uma casa pelo telhado! Pior que isso só mesmo utilizar as palavras certas fora do lugar, como aquela camisa de ganga que fica tão bem com aquela manga. Tem o fruto desenhado ou é uma manga curta de significado?

Por fim, a gramática decidiu ainda que o dia pode ser definido, se for o que é vivido, ou indefinido, se for um dia qualquer.

Não é a língua portuguesa que é difícil, são as pessoas que a tornam difícil… e a gramática.

 

Paula Brito

23 novembro 2019

Foto de Faysel que, quis o destino, hoje encontrei no Alcaide

O lugar onde eu e tu queremos viver

 

“As pessoas são tão simpáticas aqui, eu estou tão feliz por estar com elas! O tempo é ótimo e adoro estas pessoas, eu amo-as. A comida é boa e eu gosto muito.”

Faysel, refugiado do Sudão, chegou ao Fundão em 2018.

 

Até esta semana, ninguém sabia o que estava escrito naquele pedaço de papel azul que Faysel escreveu, em árabe, no seminário do Fundão, onde foi recebido em setembro do ano passado, juntamente com mais 18 refugiados, resgatados pelo navio humanitário “Aquarius”.

Faysel era um estudante universitário no Sudão, que um dia, a participar numa manifestação de estudantes, pela liberdade, pela justiça social, e por tanto que há para lutar naquele país africano, foi surpreendido pela força de um regime autoritário que lhe tirou os amigos que com ele lutavam. Entre a morte e a fuga, a escolha foi a sobrevivência.

Esta semana, o embaixador da Palestina visitou o seminário do Fundão e traduziu o que estava escrito, em árabe, naquele pedaço de papel azul, a simbolizar o mar e o céu que Faysel teve que atravessar para chegar ao Fundão.

Nada que tenha surpreendido a equipa que trabalha no gabinete para a inclusão e diversidade, já que Faysel, apesar da barreira da língua, comunica com o olhar, com os lápis com que faz os retratos da família, leia-se equipa que o acompanha no seminário, e com atitudes.

Um dos refugiados que com ele chegou ao Fundão “fugiu” para a Alemanha, para ir encontrar a família. Faysel acompanhou-o até meio do percurso e voltou para casa, isto é, para o seminário do Fundão.

A primeira oportunidade de emprego que lhe surgiu era noutro concelho, Faysel recusou porque isso implicaria deixar a família que adoptou como sua. Hoje, trabalha numa empresa do Fundão, e integra a equipa de atletismo do Grupo de Convívio e Amizade nas Donas.

Quando lhe perguntam o que gostaria de ter, Faysel responde no seu inglês difícil “uma família só para mim, uma mulher e filhos.”

A história de Faysel contrasta com a das mais de 3 mil pessoas que vivem, ou sobrevivem, em Moria, o campo de refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia.

A reportagem publicada pelo “Expresso” em fevereiro deste ano, naquela que foi a primeira vez que uma equipa de jornalistas portugueses foi autorizada a visitar Moria, tem como título, "O lugar onde nem eu nem tu queremos viver", e relata histórias de vida de quem fugiu da guerra, do preconceito, da morte, para ir viver para outra “prisão”.

Em Moria os dias são passados em filas, as noites em tendas, e o horizonte acaba ali, no muro erguido para delimitar o lugar onde ninguém quer viver, o lugar que devia envergonhar a civilização, dita civilizada.

Faysel não escolheu vir para o Fundão, mas é o lugar onde quer viver. É um dos 35 refugiados que o Fundão acolheu no último ano e meio. Atualmente são 25, todos a trabalhar. É pelo trabalho que se tem feito a integração destes, agora, migrantes, que a cidade acolhe.

E há quem pergunte: e as dificuldades, e os problemas? Bom, se fosse fácil outros já o teriam feito, por todo o país, por toda a Europa, e Moria não existiria.

Felizmente, existe na encosta da Gardunha um local onde eu e tu queremos viver.

 

Paula Brito

16 de novembro 2019

Mural de homenagem a Albano Martins do artista Daniel Eime

Dia de homenagem… a Albano Martins

 

O Fundão homenageou, este sábado, um dos seus mais ilustres poetas. Terra esta, tão fértil em cereja como em poesia!

Albano Martins nasceu na aldeia de Telhado, no dia 24 de julho de 1930. Raízes, que tentou sempre divulgar, para retificar um erro do bilhete de identidade, que dizia que o poeta nasceu em Póvoa de Atalaia a 6 de agosto do mesmo ano.

“Estava tudo errado! A minha mãe sempre me disse que nasci na Quinta do Olho do Boi, aqui no Telhado”, disse-me, em entrevista, na última vez que veio à sua terra, antes de morrer, no dia 6 de junho de 2018.

Albano Martins não tinha recordações da infância no Telhado, os pais mudaram-se cedo para a Capinha onde completou a escola primária, e à terra do barro só regressaria já tinha 60 anos, com uns amigos brasileiros…foi mais tarde, numa visita ao local, com um amigo, que lhe despertou emoções que transportou para a escrita.

“Não tenho emoções das vivências de menino aqui no Telhado, vim cá com o Fernando Paulouro e vi a casa em ruínas que me impressionou muito, há até um poema meu em que eu traduzo a emoção o que senti naquele momento, porque senti que aquela ruína era eu próprio. Eu era uma ruína naquele momento.”

Hoje a casa já não existe, mas existe um lugar na casa do barro que lhe é dedicado e, a partir de hoje, um mural que traduz a essência do poeta, do homem, ou, como disse a filha, esta tarde, em relação ao artista que o pintou “lhe soube ler a alma”.

Naquela última entrevista, no Telhado, Albano Martins disse a propósito da Beira.

“A Beira está sempre comigo, quem conhece a minha poesia sabe que em cada verso meu palpita a Beira situada entre a Gardunha e a Estrela” .

Saiu da Beira com 11 anos para viver um episódio “recambolesco” que lhe roubou cinco anos da sua vida “os mais bonitos cinco anos da minha vida”, passados num seminário de missionários nas termas de S. Vicente, no Douro, por insistência de uma tia. Foi lá que escreveu o seu primeiro poema, que era muitas vezes motivo de brincadeira em família.

Tinha 15 anos quando escreveu o que chamou de “espécie de cantilena”, que foi publicada no jornal do colégio.

“Primavera quem me a dera, pelos prados a cantar, ela ri da passarada, na ramada do pomar”.

Mas a poesia apareceu mais tarde, quando Albano Martins se formava em filologia clássica e lecionava, primeiro no ensino secundário, depois no ensino universitário. Publicou uma vasta obra de prosa, mas sobretudo de poesia, aventurou-se a escrever livros para crianças, o último, “O caroço”, de cereja, claro!

No final da nossa entrevista, pedi-lhe para declamar um dos seus poemas. De todos, de tantos, Albano Martins hesitou, sorriu e fez a sua escolha:

“Um dia voltarei à morada das papoilas, colher os versos vermelhos que semeei nas searas, um dia o vento, estará maduro.”

 

Paula Brito

9 novembro 2019

Foto: RCB (Os deliciosos miaos)

Dia de passeio… à Maunça

 

A Maunça é uma serra que, no concelho do Fundão, esconde uma pequena aldeia chamada Açor. É lá que, no próximo fim de semana, se revive uma típica aldeia do tempo dos nossos avós. A festa, a que deram o nome de Mostra de sabores e saberes da Maunça, celebra a castanha e a vida.

Não é fácil lá chegar, mas o percurso já faz parte do passeio. A cascata de cores de outono vai sendo desvendada a cada curva. Uma visão que só é interrompida à chegada ao Açor pelo fumo das chaminés, que turva a paisagem e que dá calor à aldeia onde moram umas poucas dezenas de habitantes.

A mais jovem tem 14 anos, a mais velha 93. Neta e mãe da Dona Marcelina que todos os anos frita as filhós à janela. É uma das primeiras imagens à chegada ao Açor, onde o Natal chega mais cedo, por altura da castanha!

Depois, é percorrer as ruas desta pequena aldeia, rodeada de centenários castanheiros, e descobrir, em cada porta uma tasca aberta, em cada tasca um sabor típico, já que a gastronomia é prato forte da festa que começou por ser uma matança comunitária do porco, no ano 2000.

A Mostra, que começou na entrada do século XXI, recria uma típica aldeia do século passado, quando o forno a lenha era comunitário e as famílias faziam fila para cozer, como conta a Dona Maria Amélia “tínhamos que por uma marca no pão para sabermos de quem era, umas tinham um pau, outras uma caruma, um belisco…” e era assim que, à saída do forno, era identificado o pão que iria alimentar as bocas lá de casa, até à próxima fornada, porque a fé assim o assegurava.

“Quando sacudíamos os panos onde tendíamos o pão dizíamos assim: ergue-te pão que os panais erguidos estão, tanto cresças tu no forno como a graça de Deus pelo mundo todo.” Agora o forno comunitário já só é deitado a arder no fim de semana da festa, e além do pão, coze bolos de leite e picas, uma delícia!

Uma ida à festa não dispensa uma refeição, seja de chanfana, fritada, maranhos ou feijão com couve e enchidos… no Açor, tudo tem outro sabor, “nós aqui servimos tudo o que a terra tem, tudo o que a terra dá.”

À sobremesa, ao lanche, à chegada ou à partida, não deixe de provar os miaos, já que os não vai encontrar em mais lado nenhum! Parecem sonhos, mas não são. A massa é diferente, não leva açúcar e o doce é assegurado pelo mel com que são regados, ou pelo açúcar com que são polvilhados, é à vontade do freguês! Desde há 20 anos, tantos quantos tem a festa, que tento descobrir a origem do nome destes bolos que, antigamente, não faltavam à mesa no dia da vindima, da apanha da azeitona, da matança do porco ou da malha.

Ninguém sabe a origem do nome, mas a mais velha habitante da aldeia já se lembra de ouvir a sua avó a chamar-lhe miaos e aposta que é porque aquelas bolas de massa fofa caem sempre direitas no azeite quente, como os gatos, e às vezes ficam com uns bigodes… Parece-me uma boa explicação, avalizada por quem tem quase um século de vida.

Conte com frio, e às vezes até com chuva, mas nem por isso deixará de haver festa, já que no Açor, e na vida, um dia de chuva pode ser tão bonito como um dia de sol.

Se quiser ser prevenido, pode parar ali no forno e perguntar como é que está a pá da braseira depois de mexer o borralho. “Quanto mais borralho vier agarrado à pá, mais chuva!”

Diz quem sabe, e o que não falta por ali são saberes… e sabores!

 

Paula Brito

2 novembro 2019

Ribeiro Sanches - Retrato de Júlio Gil

Dia de passeio…a Penamacor (outra vez!)

 

Em maio último escrevi sobre Penamacor, onde prometi regressar um dia… E regressei. Esta semana fui visitar a Casa da Memória da Medicina Sefardita – Ribeiro Sanches. O médico, filósofo, pedagogo, cientista e enciclopedista que é o mais ilustre filho daquele pedaço de terra entre as serras da Beira e os ventos de Espanha.

Ribeiro Sanches teria gostado da casa.

Não porque lhe é dedicada, mas pela dedicação na pesquisa da sua vida e obra, pela simplicidade, e ao mesmo tempo profundidade, com que o tema é abordado.

Ribeiro Sanches teria gostado de ver que, mais do que a sua vida e obra, esta casa, na sua terra, é um hino ao contributo que os judeus deixaram ao mundo na área da medicina.

Ribeiro Sanches teria ainda gostado da imagem escolhida para dar início à sala que lhe é dedicada e que abandona a “cadavérica” figura, com que é representado nas pinturas, esculturas e retratos. E teria gostado, não por vaidade, porque ele era tímido, tão tímido que tinha uma doença que o ruborizava sempre que falava com alguém, e que o obrigou a abandonar a medicina, algum tempo depois da sua chegada a Paris, vindo da Rússia.

Mas esta nova imagem de Ribeiro Sanches, na casa que lhe é dedicada, é, simbolicamente, um novo começo na pesquisa da sua obra. A “Casa da memória da medicina sefardita – Ribeiro Sanches” é uma homenagem tardia, após 236 anos da sua morte, da sua terra, onde, até agora, dava apenas o nome à escola da vila.

Apenas, não significa irrelevante, já que Ribeiro Sanches também terá gostado de saber que o seu nome está associado a uma escola, ele que se preocupou tanto com a educação.

“O maior serviço que posso fazer às ciências, e à minha pátria, é capacitar a quem as quiser aprender, mostrar-lhes [aos estudantes] o que sabem e o que lhes falta, e tirar-lhes as erradas ideias que já sabem e não necessitam aprender”.

Escreveu este mestre do iluminismo que nasceu em Penamacor, a 7 de março de 1699, e morreu em Paris, a 14 de outubro de 1783, aos 84 anos.

Entre Penamacor e a capital francesa, Ribeiro Sanches abraçou a Europa: Espanha, Inglaterra, França e Rússia, onde passou 17 anos da sua vida, e onde deixou um rasto na ciência e cultura deste país. É na Rússia que este homem singular reflete, apesar de distante, no tempo e no espaço, sobre Portugal, na verdade, Ribeiro Sanches nunca deixou de pensar no seu país.

Conhecido por ser o médico dos “males de amor”, por se dedicar ao estudo das doenças venéreas, como a sífilis, Ribeiro Sanches pensava como educador e higienista, e entendia que “uma nação só pode ser grande se tiver uma população saudável e é sempre preferível evitar a doença do que combate-la.” Nas palavras de Joaquim Nabais, responsável pelo trabalho de pesquisa de seis anos que está na base dos conteúdos da Casa.

Esta visão “iluminada” do mundo, da ciência, da medicina, da política, da educação, permitiu-lhe ainda ir mais além. Ribeiro Sanches também refletiu sobre as emoções tentando explicar as suas origens, analisá-las, procurando relacionar estados emocionais e comportamentos, na sua famosa obra “Dissertação sobre as Paixões da Alma”.

Um homem apaixonante que enche a alma ao visitante.

Em Penamacor não se sabe qual é a casa ou o local onde Ribeiro Sanches viveu a sua infância, mas a partir de agora ele mora na casa da memória que mais do que uma casa é um miradouro, no sentido literal e literário da palavra. Um miradouro que olha, a partir de Penamacor, para o envolvimento dos judeus que se notabilizaram na nobre missão de curar Portugal e o Mundo.

Ribeiro Sanches teria gostado!

Paula Brito

26 de outubro 2019

Imagem: retrato de Ribeiro Sanches da autoria de Júlio Gil

Foto: Miguel Proença

Dia de passeio… ao Alcaide

 

É uma das pérolas da Serra da Gardunha e o melhor miradouro sobre a Estrela e a Cova da Beira. Na aldeia de Alcaide, no concelho do Fundão, atrás de cada portão há um jardim, acima de cada olhar, um solar, em cada travessa, uma paisagem para disfrutar.

Um dos seus mais emblemáticos elementos, que sobressai no meio da Gardunha como que a sinalizar que ali há um tesouro para descobrir, é a sua bonita torre sineira, em pedra, pintada a branco na cúpula, que data de 1694 e que é a mais notável torre do género da diocese da Guarda. Ao perto, nota-se uma acentuada fissura, provocada pelo terramoto de 1755, como se de uma cicatriz da tragédia se tratasse.

Ao lado, a igreja matriz, anterior à torre, é um templo de três naves com oito pilares de granito. No interior, sobressaem os altares de talha dourada e algumas imagens e pinturas dos séculos XVII e XVIII. O portal românico, e principal entrada no templo, fica virado para a casa Cunha Leal, um dos muitos ilustres filhos desta terra, fértil no campo e no intelecto.

Cunha Leal foi deputado, ministro das finanças e reitor da universidade de Coimbra e não deixa de ser irónico, que a mesma rua onde viveu este político republicano tenha testemunhado o nascimento de João Franco, um dos mais importantes políticos na fase final da monarquia constitucional, e conselheiro do rei D. Carlos. É à família de João Franco que pertence um dos maiores solares da aldeia.

O de D. Fernando de Almeida, médico, arqueólogo historiador e catedrático, é outra peça de arquitetura que vale a pena ver. E já agora, ande mais uns metros e visite a casa do Visconde, com o seu romântico jardim que o portão esconde.

Mas nem só de solares vive o Alcaide, os seus balcões e janelas tecem a paisagem desta harmoniosa aldeia que, nos próximos dias 15, 16 e 17 de novembro, recebe a festa dos Míscaros, este ano dedicada à fantasia.

Duendes, princesas e fadas vão tornar ainda mais mágica a aldeia. É que tenho a certeza que se a Cova da Beira fosse o império romano, o Alcaide seria a aldeia do Astérix e que as suas gentes teriam inventado uma poção mágica, só para a proteger.

É este o espírito da festa que valoriza a história e o património do Alcaide. O míscaro é um delicioso pretexto para visitar, ir almoçar ou jantar e um passeio pela serra arriscar, e não se espante se por ali os smurfs encontrar.

É que as personagens de fantasia vão andar por ali a encantar o visitante, como se a aldeia não fosse já de encanto!

 

Paula Brito

19 de outubro de 2019

Dia de passeio… a Cabo Verde

 

Um dia fui à terra estimada de Cesária Évora e descobri o quanto os portugueses são estimados nesta terra “de paz e de gozo”, como a cantou a diva dos pés descalços, a rainha da morna, a maior embaixadora de Cabo Verde no mundo.

Ainda hoje permanece a discussão sobre quem descobriu estes “10 grãozinhos de terra que Deus espalhou no meio do mar”, mas o que não tem discussão, é que é Portugal que mora no coração dos cabo-verdianos.

É algo que se sente, no olhar, nos sorrisos, na alegria, na hospitalidade, no dia-a-dia, nas coisas simples…

A viagem era de trabalho, mas a tarde era de descanso, e a pequena praia do Tarrafal estava quase deserta. Quase, porque Maria Amarante, que até no nome tinha mar a dobrar, teimava em vender o coco, a água e o churrasco, que haveriam de alimentar as 10 bocas lá de casa, já sem pai para as governar, pescador que não mais voltou do mar, “não mais voltou ao lar…”, para citar o poeta cabo-verdiano, Eugénio Tavares, no seu lindo poema “Mar eterno”.

Maria Amarante nunca saiu da ilha, “a minha terra é boa, gosto de vender na praia água fresquinha…” dizia sorrindo para mim e para o gravador, como se quisesse que a alegria que sentia, também ficasse registada.

Já os planos de Anilton, com apenas nove anos, eram outros, “eu quero ser motorista, porque gosto de música”. Haverá melhor profissão para ouvir música o dia todo do que a de motorista? É como gostar de vender água fresca na praia para sentir a areia nos pés descalços e o cheiro da maresia, todo o dia!

Ju tinha 23 anos, pescava atum todos os dias, e todos os dias o mar o presenteava com o peixe que vendia, fresco, aos hotéis da vila. Era assim desde os 18, como se a maioridade lhe tivesse permitido ter estatuto de pescador e a barba já lhe protegesse o rosto do salitre.

Domingos ganhava a vida a transformar a cana em calda, que esmagava até estar fermentada e ir para o alambique, de onde jorrava a aguardente, amarga ou doce, dependendo dos dias do trago… “enquanto houver chuva abundante, o povo está contente!” Sentenciava, em dia de sabor a amargura.

Amarante, Anilton, Ju e Domingos, nunca sentiram “Este desespero de querer partir e ter que ficar!”, “Este convite de toda a hora que o Mar nos faz para a evasão”, como descreve Jorge Barbosa no seu “Poema do mar”, numa referência à partida de centenas de cabo-verdianos, todos os anos, do arquipélago. É que são mais fora de Cabo Verde do que a residir nas ilhas, que o mar “cerca e prende”.

A localização, entre Paralelos, traçou-lhe o destino. Povoado de descendentes de africanos e europeus de várias proveniências, na sua maioria portugueses, mas também franceses, italianos e espanhóis, Cabo Verde olha para Portugal como a terra mãe.

A viagem que descrevo aconteceu quando, em simultâneo, decorriam, em Portugal, as eleições presidenciais e em Cabo Verde, as legislativas.

Na Rádio Cabo Verde, as notícias começavam com a campanha eleitoral em Portugal, depois a campanha legislativa em Cabo Verde e, por fim, os resultados do Benfica, Sporting e Porto.

Este alinhamento de um jornal diz muito da forma como aquele arquipélago vive Portugal, acompanha as nossas vivências, a nossa campanha eleitoral!

Durante a estadia em Cabo Verde, visitámos o que resta da prisão portuguesa no Tarrafal, no extremo oposto da ilha de Santiago, a 70 quilómetros da capital, Praia.

A reforma prisional de 1936 previa que os criminosos políticos fossem enviados para as colónias penais no Ultramar, é neste contexto que é criada a colónia penal de Cabo Verde, no Tarrafal.

É lá, sobre as ruinas deste complexo, que estão a memórias de um regime prisional muito severo, cujo expoente máximo é o episódio da “frigideira” onde morreram 32 detidos. O edifício é descrito como um local fechado, sem portas ou janelas, onde os prisioneiros passavam fome, frio durante a noite e calor durante o dia, um calor que queima como uma frigideira e que mata em lume brando. Do edifício só resta o local e os testemunhos escritos, dos que sobreviveram ao inferno.

O que ainda existe, na prisão do Tarrafal, é a tristemente célebre “cela do pingo” – uma cela dentro de outra, solitária, onde os prisioneiros eram torturados por um pingo de água a cair-lhes na cabeça, horas, dias, semanas, meses…

O campo impressiona, mas é pena estar tão longe da vista dos portugueses. Em dias como o último domingo, em que fomos chamados a votar, convinha lembrar quem morreu e sofreu para nos dar essa liberdade… Parece que fazer uma cruz é carregar uma cruz!

É só uma cruz, num papel, coisa simples, como a areia nos pés de Amarante, o volante nas mãos de Anilton, o salitre no rosto de Ju ou a aguardente na garganta do Domingos.

Coisas simples…

Paula Brito

12 de outubro de 2019

Foto: Miguel Proença

Dia de passeio… pelo recreio

 

O ano escolar começou. Livros, cadernos e borrachas, canetas com pontas, lápis sem conta, um esquadro para enquadrar, um guache para pintar, um compasso para acertar o passo, uma régua para levar tudo a direito, um tubo de cola, micas, estojo e, claro, a sacola!

Pesada, coitada, com tanto futuro para carregar. E lá vão as crianças, cheias de esperança de, no recreio, a carga aliviar!

Mas o tempo não perdoa. A senha para o almoço, a fila para o engolir num trago, o cartão ao pescoço, as sapatilhas trocar. Os trabalhos de casa não podem esperar, é que apesar de serem de casa é para a escola levar, mais um peso para carregar!

Quantas salas, quantos corredores, quantos cadernos, quantos professores? E o recreio que tarda em chegar…Será que dá para uma partida jogar?

Hoje é dia de tocar um qualquer instrumento, amanhã de aprender a nadar, depois um clube frequentar, até a noite chegar e, mais uma vez, não haver tempo para brincar, só para o jantar e os dentes lavar.

E somam-se os dias, e crescem os seres, os pais descabelados, andam preocupados. Um só quer jogar à bola, o outro brincar na consola, aquele os desenhos animados ver, este um tesouro esconder, antes que chegue a puberdade…

E eu pergunto, não será da idade?

 

Paula Brito

5 de outubro 2019

Foto: Miguel Proença

Dia de passeio...pela semana

 

Têm-me perguntado, se só escrevo ao sábado, o que faço nos restantes dias da semana? Entre a ressaca de um sábado vadio e a perspectiva de uma segunda trabalhada, está o domingo do ócio assumido.

Dia bem comportado, de almoço prolongado, a sesta dormir, um filme escolher, um livro para ler, dia de passear, espreguiçar e… às vezes a faxina fazer!

Arrumar as gavetas da vida, o pó das arrelias sacudir, as invejas aniquilar com lixívia, aspirar o cansaço, sacudir os atrasos, por um tapete novo, à entrada ou à saída, depende como a semana correr à vida!

Domingo também pode ser dia de comprar mantimentos, arrumá-los em compartimentos, tirá-los consoante a disposição: hoje é segunda apetece-me feijão, cai bem com um copo de vinho, com um brinde, com um carinho.

Amanhã é terça, pode ser que uma salada me apeteça, que dos problemas me esqueça, decidir entre o ócio do sofá e o apelo do teclado, que me chama para ser tocado.

Na quarta, já estou farta! É dia de jantar fora, dos amigos reunir, de um serão arriscar, se o trabalho não se prolongar até que haja luar.

Na quinta é dia cheio, não há tempo para passeio. O melhor é ir saborear o almoço da mãe, deixar que a sopa de mimo me reforce a semana que parece estar a terminar, mas antes é preciso a sexta enfrentar!

Normalmente dia louco, parece que toda a gente deixou o último dia para fazer aquilo que queria! Felizmente há a perspectiva que a noite seja de alegria.

A semana está a acabar, um novo ciclo a começar, e assim vão passando os dias...o melhor é esfregar bem os vidros, acabar a faxina, para durante a semana conseguir observar a vida, para lá da rotina.

 

Paula Brito

28 de setembro 2019

Foto: Miguel Proença

Dia de passeio… ao meu jardim

 

Tenho um jardim que é só meu, porque mora na minha imaginação, e para onde vou sempre que me apetece a solidão.

Fico por ali a ouvir um rouxinol envolvido num ramo, como se fosse um lençol, o chilrear de um beija flor que voa para beijar uma dor, a água a correr, como que a dizer “anda, vamos navegar sem velas, ficar até tarde, ver as estrelas!”.

No meu jardim há poemas escritos nas pedras, de onde vão saltando palavras…Uma letra, outra letra, soltam-se ao vento e nascem canteiros com flores de várias cores.

Os gladíolos brancos nasceram de prantos, a alfazema foi semeada com um poema, a mais delicada flor nasceu da palavra amor, a tulipa amarela nasceu de uma estrela, a flor de jasmim de uma saudade sem fim…

As oliveiras, enrugadas, parecem guardar passadas que já demos esta, outra, infinita. Onde nasce uma oliveira, nasce azeite, nasce luz, a eterna, a que seduz…

No meu jardim as árvores também se abraçam, os troncos se entrelaçam, os ramos quase se tocam, as folhas soltam beijos, de desejo, de cortejo…

Neste meu jardim, há ainda um enorme lago, onde mergulho e me espraio sem nunca tocar no fundo, emergindo ao mundo, qual pato que cai e cisne que se levanta.

Ah! E também há borboletas que esvoaçam como setas, a quererem atingir alguém, com doçura, com ternura, que são os sentimentos que melhor transformação provocam a um coração.

No outro dia, vi um corvo, negro azulado, de bico dourado e olhos de mago, e um lince, a querer fugir por entre as árvores dos celtas, alinhadas, esbeltas, guardiãs de segredos ancestrais.

Não tive medo, só vontade de também voar e lançar magia ao mundo, fazê-lo por um segundo, para trigo semear, para a magia acontecer, e voltar, no dia seguinte, àquele jardim encantado… onde me encontro comigo.

 

Paula Brito

21 de setembro 2019

Dia de passeio…a Alpedrinha

 

Alpedrinha tem origem no romano Petratínia, a que os árabes acrescentaram o prefixo Al, e que a erosão do tempo e da oralidade transformou em Alpedrinha. Esta é pelo menos a tese, resumida, de António José Salvado Mota na sua monografia sobre esta vila do concelho do Fundão que é também conhecida como “Sintra da Beira”.

Terá sido a Marquesa de Alorna, que além de marquesa era poeta, que assim a baptizou, nas suas muitas passagens pela vila das janelas manuelinas, dos solares brasonados, das casas de balcão e alpendres, das varandas de ferro forjado…

É fácil imaginar a Marquesa a inspirar-se no ar fresco das manhãs de Alpedrinha, que acorda todos os dias no colo da Gardunha, “vai fresca a manhã alvorecendo, vão os bosques as aves acordando, vai-se o sol mansamente levantando, e o mundo à vista dele renascendo…”

A imponência do casario e dos monumentos de Alpedrinha preservam a história de uma vila que já foi sede de concelho. Que o diga o pelourinho à frente da antiga casa de câmara, construída em 1680 e que, em mais de 300 anos, já foi uma cadeia, uma escola, uma sala de espectáculos, adega e até açougue!

Em dia de passeio a Alpedrinha passe por lá, antes da subida até à igreja. Um templo com três naves que foi construído em 1560. Entre na igreja e disfrute dos seus seis altares de talha dourada, esculpida, pintada, das várias figuras de arte sacra e não deixe de reparar na Pietá do altar mor.

As torres sineiras são posteriores ao templo e sobressaem na paisagem da vila, se vista do palácio do picadeiro.

Um palácio que nunca foi acabado, um palácio que nunca foi habitado. É já no século XXI que é terminado e transformado num espaço visitável onde é obrigatória uma paragem na sala dos embutidos, uma técnica, que é uma arte, de decorar a madeira.

À primeira vista os desenhos parecem pinturas, mas na verdade estamos perante um puzzle de milhares de pedacinhos de madeira, exóticas e nobres, como a cerejeira, o bambu, o pau preto ou o castanho, que são todos colados como uma cola especial e muita habilidade, já que não se nota, nem com o toque.

A jóia da coroa é um aparador com os desenhos embutidos de seis dos 10 cantos dos Lusíadas, onde se pode encontrar o canto da Ilha dos Amores, do Adamastor ou a morte de Inês de Castro, dependendo do lado de onde se observa a obra-prima.

É um móvel único já que Parente Pinto, que levou a primeira marcenaria de embutidos para Alpedrinha no século passado, deixou expresso que na sua oficina não podia ser feita mais nenhuma obra com aqueles motivos.

E não foi. E hoje também não será, já que só existe um artesão em Alpedrinha a trabalhar a arte que requer muita paciência, muito saber e muito tempo…

Aos pés do palácio está o chafariz D. João V de onde jorra água todo o ano. Mas cuidado com a escolha da bica onde vai beber água. A do meio é a das solteiras, a da direita, a das casadas e a da esquerda da Maria Amarela e nesta, só por ignorância enchem o cântaro, pois há a crença de que a água desta bica faz remelar quem a bebe.

“Maria Amarela era uma velha remelada e vesga, que tinha fama de bruxa e tomou a mania de beber água naquela bica e lavar os olhos sempre que ia encher o cântaro. De tal forma pegou a doença à bica que ainda hoje lhe dura”.

Mas fontes e chafarizes é o que não falta em Alpedrinha, com os mais bizarros nomes. Aceite o desafio e parta à descoberta da fonte das Peles, do Carvalho, da fonte Funda, do Leão, da Fome ou do Pátio. Esta última situada no pátio da casa com o mesmo nome, tinha o privilégio de nela não entrar a justiça do reino. Bastava alguém tocar na argola de ferro do portão para não ser preso.

Se for a Alpedrinha no terceiro fim de semana de Setembro, que por acaso é este, além de disfrutar da vila, pode disfrutar da festa que ao longo de três dias acorda as pedras da calçada e ilumina a cantaria. São os Chocalhos, assim batizados para celebrar a rota da transumância, os rebanhos que vindos das secas planícies procuravam os pastos frescos das serras.

Um passeio recriado no domingo de manhã, mas que pode ser feito em qualquer altura do ano, basta escolher de que cor quer a Gardunha vestida. De branco por altura das cerejeiras em flor, de vermelho quando a flor dá lugar ao fruto, de castanho e amarelo fogo no Outono, ou de verde pinho e verde musgo se for inverno….

 

Paula Brito

14 de setembro 2019

Dia de passeio…pelo talho!

 

Conheço um talho onde trabalha um rapaz, cujo nome não sei, mas sei que maneja a faca como se fosse um espadachim e canta quando pensa que ninguém está por perto. Não sei se toca piano, mas fala fluentemente o inglês. Além disso, domina todos os segredos da arte de cortar carne.

Alinha os nervos com o gume, corta lombos como se fossem manteiga e fica ofendido se alguém pergunta se o corte não é todo igual! Não imaginam as mil e uma maneiras que existem de cortar peitos de frango. A minha preferida é em forma de coração! E não se fica pelo corte, aconselha o cliente a fazer uma romântica surpresa ao jantar, apenas com um golpe de faca.

Fala da vida dele com mesma naturalidade com que prepara um lombinho. Esteve muitos anos no estrangeiro, voltou devido à morte de um familiar próximo, adora crianças mas não tem filhos porque ainda não encontrou a cara-metade… e vai entremeando a vida com um golpe no entrecosto da cliente número 23 que, antes de mim, soprava como se as brasas onde ia assar o entrecosto já se estivessem a apagar.

Esta semana havia na vitrine, que limpa como se o vidro pudesse tirar toda a beleza da carne rosada, uns rolos embrulhados em massa folhada. Perguntei o que tinham dentro. Abriu os rolos como quem abre um livro de receitas, cheirou, disse que a carne era boa e aconselhou-me a dar umas pinceladas com ovo antes de irem ao forno!

De repente, começou a trautear uma lenga-lenga, em inglês, a traduzir mentalmente, para terminar dizendo a quantos graus e quanto tempo no forno deveriam estar os deliciosos rolinhos.

Levei os folhados para confirmar se o talhante era um bom vendedor de carne ou se também vendia ilusões!

O rapaz do talho, cujo nome não sei, mas sei que prepara carne com a mesma delicadeza com que uma florista prepara um ramo de flores, também tira as medidas aos clientes. Percebeu que eu gostava de passar pouco tempo na cozinha e deu-me uma receita rápida com salsicha de especiarias, cogumelos frescos e queijo.

No final, como se fosse o último resto de carne que metia no saco do cliente porque já não o iria vender a mais ninguém, tirou um bónus da cartola. É só para um jantar rápido, deixe que ele a leve a jantar fora!

Sorri, agradeci-lhe a boa disposição e saí do talho com um saco de carne cheio de sabedoria.

O rapaz do talho, cujo nome não sei, mas sei que vende carne com grande agilidade, encontrou a sua varinha mágica: a faca com que corta a carne é a mesma com que vai distribuindo nacos de felicidade… o preço é conforme, mas de borla para quem consegue olhar para lá do uniforme.

Paula Brito

7 de Setembro de 2019

Foto: Miguel Proença

Dia de passeio… a navegar

 

Pressinto-te! Não me perguntes porquê? Mas sinto que as gotas da chuva na tua janela já não são lágrimas. Agora danço com elas. Sabes que gosto de dançar à chuva! Sinto-me nua, sinto-me tua.

Pressinto-te! Mesmo que a água venha em forma de neve ou trovoada, refrescar a manhã ou limpar a noite enevoada…

Se no mar cai, salga a pele, se num rio, encontra um caminho, às vezes ansiosa por chegar ao mar, outras, parece estagnada, há dias que serpenteia, procurando a esmo a madrugada!

As gotas da chuva, quando na terra caem são como a paixão, sofregamente absorvidas, às vezes provocam torrentes, precisam de salva vidas!

A água que sai da pele, ou suor de trabalhador, ou corpo de água sedento, ou então é só calor ou febre de desalento.

A água que corre nas fontes, tem segundas intenções, não mata apenas a sede, alimenta corações.

A água das ribeiras, já não desagua no rio, já nem peixe, nem sabão, nem lavadeiras de brio.

Mas a água, quando cai do canto do olho, encharca, deixa a sua amarga marca… Ainda que lacrimejar soe bem à poesia, mas se o verbo for chorar, até corpo de orvalho arrepia.

Há quem diga que a água não tem gosto, só quem nunca lambeu uma lágrima do rosto.

Há ainda quem a tema se movida a trovão, não há nada na trovoada que não tenha sido já sentido por um coração.

Mas ainda há também quem a chame inodora, deve ser quem nunca cheirou a terra, depois da chuva da aurora.

A água também gosta de dançar, onda a onda, se for no mar, gosta de rebentar na praia como louca, deixar búzios na areia, para a qualquer hora do dia sentir o som da maresia.

Dizem que não se deve partilhar um copo de água. Agora já percebo, é que uma só gota pode conter tanto segredo!

 

Paula Brito

31 de Agosto de 2019

Estátua do imperador Augusto

Dia de passeio…em Agosto

 

Deus criou Agosto para nos mimar. Ao oitavo mês vão descansar! Venham as festas e as romarias, os primos, os padrinhos e as tias. Que o teatro saia à rua, que a cidade fique nua, que o país tombe para o mar... mas só para descansar!

Que as notícias sejam a cores, falem de sons e de sabores, esqueçam guerras e guerrilhas, venham de lá as cigarrilhas, que os noivos estão no altar!

Agosto traz o suor no rosto mas o camponês se deleita, porque o mês é de colheita… já toda a fruta tem gosto e a vinha prepara o mosto, do vinho que há de regar, nas esplanadas, o jantar.

Seja Augusto imperador, seja o menino Agostinho, Agosto gosta de ser gente, de cumprimentar o vizinho. “Adeus Julho, olá Setembro, ninguém me bate em popularidade, eu sou o Agosto quente, que leva e traz a saudade.”

Pelas ruas corre Agosto, com o seu “A” sempre a sorrir, agora que lhe estava a tomar o gosto é que tenho que partir!...

O melhor é levar um pedaço no bolso… Nunca se sabe quando o inverno precisa do sol de Agosto.

Paula Brito

24 de agosto 2019

"Vénus e Marte" de Sandro Botticelli

Dia de passeio… a Marte

 

Antes de ser planeta e mês, Marte foi deus. O deus romano da guerra. Aliás, todos os planetas do sistema solar descobertos na Antiguidade têm nome de Deuses.

Mercúrio, o deus mensageiro, Vénus, a deusa do amor, Marte, deus da guerra, Júpiter, o rei dos deuses, Saturno, da renovação e agricultura, Urano, deus do céu e, na altura planeta, Plutão, deus dos mortos e da riqueza.

Na arte, Marte é representado normalmente com um escudo, uma arma e um capacete. Nesta pintura de Botticelli está, no entanto, despojado de todos esses símbolos, porque o deus guerreiro cedeu à beleza e ao amor de Vénus. Amantes, os dois tinham uma relação de “adultério”, se é que entre deuses há estes rótulos, do qual resultou um filho: Cupido, que terá herdado o amor da parte da mãe e a flecha, com que atinge e apaixona corações, do lado do pai!

Mas voltemos a Marte, porque em Terra os sentimentos e as relações humanas são difíceis… até de explicar!

Marte ganhou o cognome de planeta vermelho devido às rochas ferrugentas e areias da mesma cor, mas pode também simbolizar a arena da cor de sangue que uma guerra provoca. Se bem que, guerra em Marte, só se for fria, porque a temperatura é tão negativa, que até o nevoeiro congela!

Marte, o deus, é também o responsável pelo mês de março, que era o primeiro mês do calendário romano tradicional, porque era o mês do início da primavera, quando tudo nasce e renasce.

O maior campo verde de Paris, aos pés da torre Eiffel, tem também nome de Marte. Le Champ de Mars é inspirado no campo de Marte, da antiga Roma. O primeiro, é um local de romance, o segundo, de guerra, a fazer lembrar o quadro de Botticelli…

Vénus olha para o amante adormecido, um guerreiro transformado num homem indefeso. A deusa da beleza e do amor sabe que não pode ter Marte… “mas posso amar-te!”

Paula Brito

17 de agosto de 2019

Foto: Miguel Proença

Dia de passeio…pelas terras de Portugal

 

Passear pelas estradas secundárias do país, pode ser uma aventura etimológica, histórica, lendária e cultural. Basta olhar para as placas a indicar os nomes de terras, sejam cidades, vilas, aldeias ou pequenos lugares. Nomes curiosos, alguns estonteantes, outros óbvios, mas a maioria sábios, porque captaram a essência da localidade. Ler a placa, desde que não seja ao contrário, e pensar que há muitas terras com o nome “Deus te guie”, é um dos meus passatempos nas viagens pelas terras da Beira, mas pode fazê-lo em qualquer região do país, da Europa e do mundo.

Há terras com nome de gente, como Aldeia de João Pires, Álvaro ou Salvador e outras que aparentemente têm nome de animal, como Orca, Zebras ou Aranhas.

“Aranhas” é uma aldeia do concelho de Penamacor, que fica a dever o nome, não ao animal que existe em todas as terras e continentes, mas às tecedeiras e teares que, em tempos, ali existiam, porta sim, porta sim. É fácil imaginar a orquestra de teares a ecoar nas ruas de Aranhas, cujo nome vem do emaranhado de fios que se montam no tear a que se chama urdir a teia. É nesta teia de fios que a ti Ludovina lança a lançadeira com a destreza de quem faz isto desde os 14 anos. Hoje, trabalha a arte por gosto, e o seu tear, é o único que ainda se ouve em Aranhas.

O nome da aldeia e o tear, que surge ao centro da heráldica da freguesia, perpetuam a arte em Aranhas, onde já não se ouve a orquestra de teares, apenas o choro das canelas e das lançadeiras, com saudades das briosas tecedeiras.

Há terras com nomes de santos, como S. Pedro, Santa Maria, S. Miguel ou Santa Margarida, com nomes de lendas, como Mata da Rainha, Benquerença ou Torre dos Namorados, com nomes que revelam a sua orografia, como Montes, Ladeiras, Coutos, Cortes, Vales, Atalaias, a sua geografia, já que podem ser de Baixo, de Cima ou do Meio, e terras que se inspiraram na natureza, como Salgueiro do Campo ou Teixoso.

“Teixoso” é o nome de uma vila do concelho da Covilhã e tem origem na palavra teixo, árvore que outrora por ali abundava, como aliás em muitas terras. Mas o teixo, devido ao veneno das suas folhas, que os celtas utilizavam para envenenar as lanças e as setas, foi praticamente banido das terras e sobretudo dos cemitérios, onde abundavam. O problema é que matavam os animais que, depois de carregarem os mortos, nas suas sombras, esperavam pela realização do enterro, sem saberem que estavam a cavar a sua própria sepultura, comendo aquelas apetitosas folhas.

E foi assim que o teixo quase se extinguiu da superfície da terra… Mais tarde a comunidade científica criou um medicamento anti cancerígeno que utiliza o taxol, um composto retirado das folhas do teixo. Este é o melhor exemplo de como tudo na natureza é importante preservar, mesmo o que aparenta ser um malefício se pode revelar um benefício para a humanidade.

Hoje ainda há um bosquete de teixos na Serra da Estrela, uma vez que gostam de grandes altitudes, e um frondoso exemplar numa das praças da vila que o preserva no nome e na heráldica.

Há ainda nomes de terras separadas pelo tempo como Idanha a Velha e Idanha a Nova, por um rio, como Janeiro de Cima e Janeiro de Baixo, Peso e Pesinho, terras que os árabes batizaram com a sua assinatura em jeito de prefixo, como Alcafozes, Alcaria, Alcongosta, Alpedrinha, Alcains, Almaceda… e terras que se confundem com a paisagem como Atalaia do Campo ou Souto da Casa.

“Souto da Casa” é uma aldeia do concelho do Fundão, à beira da Serra da Gardunha, onde os soutos abundavam porque os castanheiros, além de aquecerem as casas, deitarem fornos a arder para cozer o pão e o feijão, permitiam ainda acender as lareiras onde se cozinhava o caldudo, que não era mais do que sopa de castanha. O fruto era a base da alimentação e a árvore, de tão importante, consta na heráldica da freguesia que se batizou de Souto, dando o nome do coletivo de castanheiros ao coletivo de casas.

E finalmente, há terras com nomes peculiares como Lavacolhos, Cantar Galo, Cabeçudo, Eirigo, Pisoria, Girabolhos, Miragoto, Carragozela ou Abitureira...

 

Paula Brito

10 de agosto de 2019

Auto retrato multicultural do artista KubiKS

Dia de passeio…ao futuro

 

Consegue imaginar a sua aldeia, vila ou cidade daqui a 20 anos? Então venha daí, num passeio pelo tempo rumo a 2039.

Em Portugal, esteja onde estiver, a realidade não difere muito em termos demográficos. Com base nas estatísticas, em 2031 passaremos de 10,3 para 7,5 milhões e o índice de envelhecimento vai disparar para o dobro, atualmente está nos 157,4, ou seja, existem 157 idosos por cada 100 jovens. Esta é a realidade de um país a envelhecer e a assobiar para o lado, pelo menos enquanto tiver fôlego! Uma realidade que se estende de Norte a Sul, mas que se sente primeiro a Este, porque já estou cansada da palavra interior!

É a partir da minha terra, que fica ali entre a Beira Baixa e o mundo, que partimos rumo ao futuro. Durante a viagem lembro o que a falta de pessoas vai causar a estas terras, sem gente para as cultivar. Os edifícios das escolas, que se fecharam por falta de crianças e passaram a ser sedes de colectividades, vão voltar a ficar devolutos. Os jovens já não serão suficientes para formar uma banda filarmónica, um rancho folclórico, um grupo de cantares, de bombos, de adufeiras. E lá se vão as tradições!

Quem vai carregar com os andores das seculares procissões? Quem vai erguer o bombo ao céu e tocá-lo até os anjos acordar? Quem vai entoar os cânticos das lavadeiras e dos lavradores?

Chegámos ao futuro. Ainda bem, já ninguém aguentava tão triste sina!

Bem-vindos a 2039!

De certeza que é uma segunda-feira, tanta gente na rua, só pode ser dia de mercado, pelo menos ainda há mercado… e cheira a especiarias!

- Tem açafrão das Índias?

– Já acabou, agora só amanhã.

- Mas amanhã também há mercado?

- Todos os dias, menos aos sábados, que é dia sagrado para uns, e aos domingos, que é um sagrado dia para outros!

A minha terra deixou de ter um mercado semanal para ter um mercado todos os dias úteis! A principal avenida mudou de nome. Já foi de Salazar, da Liberdade, e agora, em 2039, é a Avenida dos Sabores. E não é para menos, há um restaurante em cada porta, e há mais uma maneira de fazer bacalhau, o bacalhau acarilado. O arroz branco ganhou cor mas o caldo mantem-se verde e continua a ser um bom acompanhamento para ouvir o fado, que agora também é sambado e a sardinha, regada a caipirinha!

A banda filarmónica, em 2039, tem harpa e krar, e os sóbrios uniformes contrastam com as coloridas e longas vestes que terminam em pés descalços. A minha terra, em 2039 está povoada de gente, de cor, de culturas. Daqui a 20 anos a minha terra já não será entre a Beira Baixa e o mundo, ela será o mundo.

Regressamos a 2019.

Na viagem, imagino o que terá acontecido? A resposta está no presente, nas dezenas de nacionalidades que uma só empresa de tecnologias acolhe no seu interior, nas sete diferentes nacionalidades que o gabinete para a inclusão e diversidade cultural está a acolher e a integrar numa região cuja universidade tem mais de 1.100 estudantes estrangeiros, numa região em que num dos seus concelhos residem mais ingleses do que habitantes tem cada uma das suas freguesias.

Está desvendado o mistério do tamarilho que apareceu no quintal da minha irmã, onde até agora só se colhiam cerejas e medronhos. A fruta exótica ali cresceu, sem ninguém dar por isso, adaptando-se ao clima e à fertilidade da terra.

A mãe natureza, sempre atenta, já prepara o futuro...

 

Paula Brito

3 de agosto de 2019

Dia de passeio...pelo diário de uma jornalista

Um destes dias encontrei a minha catequista, que não via quase desde a primeira comunhão, e me perguntou com a sua voz sempre doce, o que é que eu fazia. Quando lhe disse que era jornalista sorriu, como se já soubesse a resposta, "só podias, tu fazias-me sempre tantas perguntas".

A frase deixou-me a pensar. Apesar de exercer a profissão há 21 anos, acho que sou jornalista desde que nasci. Não me lembro de querer outra profissão, nem de concorrer a outra formação... Recordo a minha primeira reportagem, fui ameaçada com um processo em tribunal, do meu primeiro debate, sobre o comércio tradicional, e de tantas peripécias, que estaria aqui a escrever até ao próximo sábado.

Partilho apenas aquele direto de um incêndio em que entrevistava o presidente da freguesia que estava cercada por chamas. De repente os bombeiros começam a chamar-nos, o fogo estava mesmo atrás de nós. Lição: nunca virar as costas ao fogo, à notícia, aos problemas e enfrentar sempre a vida de frente.

A entrevista é o meu género preferido. Já já fiz centenas de entrevistas, umas melhor conseguidas que outras, algumas marcantes, outras de que já nem me lembro...mas recordo a primeira e a última entrevista que fiz ao mesmo autarca, no início e no fim da carreira política, "na primeira fez-me suar, na última, chorar", ou aquela adolescente que entrevistei no final da peça de teatro em que participou. Perguntei-lhe se queria seguir esta área, mais tarde disse-me que foi a partir dessa entrevista que começou a pensar seguir artes...e seguiu.

No passado mês de janeiro, a professora do meu filho pediu-me para ir à escola, porque andavam a estudar a entrevista. Pensei que ia falar do tema, mas afinal era para ser entrevistada e, pela primeira vez, estive do outro lado do microfone. Uma das crianças perguntou-me: - Se não fosse jornalista, o que gostava de ser? Fiquei sem resposta, mas a pergunta fez-me pensar o quanto gosto de escrever e viajar.

Foi a partir destas duas paixões que, em Abril, criei o site www.nuncamaisesabado.net que, desde a passada semana, a pedido de várias famílias, transportei para o facebook NuncaMais ÉSábado.

A vida tem destas belas ironias!

 

Paula Brito

27 de julho 2019

Dia de passeio... até à lua!

 

E porque hoje se assinalam 50 anos desde que o Homem, deixem-me escrever homem com aga grande e não me venham com a história dos cidadãos e das cidadãs, outro dia escrevo sobre o assunto, hoje apetece-me falar da lua. Porque, dizia eu, o Homem chegou à lua há 50 anos e há quantos anos chegou a lua à Terra?

Já lá vão tantas luas que ninguém sabe, só sabemos que é ela que rege vários calendários. A começar pelo calendário litúrgico. É a lua que determina, por exemplo, o dia em que se realiza a Páscoa cristã: sempre no domingo a seguir  à primeira lua cheia, depois do equinócio da Primavera. Por isso o calendário da Páscoa é sempre amovível, mas dentro de uma janela de tempo de 29 dias, tantos quantos os do ciclo da lua.

Calculada a Páscoa, recua-se uma semana e está encontrado o domingo de Ramos e vamos recuando seis domingos. Na terça-feira antes do último, é carnaval, no dia seguinte é quarta-feira de cinzas e início da quaresma, depois é continuar a andar para a frente no calendário até domingo.

A partir do primeiro domingo da quaresma, inclusivé, basta batizar todos os domingos: Ana, Magana, Rebeca, Susana, Lázaro, Ramos, na Páscoa estamos. E pensar que tudo começou com a lua!

Aos nossos antepassados bastava-lhes olhar para a cor da lua para saberem o tempo: Lua pálida anuncia água, vermelha, vento e branca bom tempo.

Os meus avós, que tinham uma quinta, tinham também um calendário lunar que consultavam sempre antes de ousar semear, não fosse a lua estar em quarto minguante, porque “ao minguar da lua não começes coisa alguma”.

Os pescadores também consultam o calendário lunar antes de se fazerem ao mar “já que é pelas luas que se tiram as marés”.

Se a lua for cheia, tudo clareia, se minguar, nada hás-de semear, se for nova e vier calada, porta trancada, mas se for crescente é boa para a semente.

“Tenho fases, como a lua, fases de andar escondida, fases de vir para a rua..”, o poema de Cecília Meireles, é um dos muitos, dos tantos que existem sobre a lua. Palavra poética, por ter tanto de beleza como de magia, de luz como de sombra, a lua é a prova de que a noite também tem dias...

E este é o dia que lembra que o Homem a tentou conquistar, mas a lua já estava apaixonada... pelo sol da madrugada.

 

Paula Brito

20 julho 2019

Dia de passeio... com a mãe

 

Mãe é, provavelmente, a mais universal das palavras, porque, apesar de se escrever de forma diferente, em todas as línguas ela tem o mesmo som inicial - ma – um dos primeiros sons do bébe a pedir alimento.

Se a palavra mãe fosse uma flor seria um amor perfeito, porque inquestionável, tolerante, insubstituível, um amor que perdoa sempre, um amor para a vida e para lá dela.

Se a palavra mãe fosse uma cor seria castanha, cor de terra, porque porto de abrigo entre viagens, porto seguro entre tempestades.

Se a palavra mãe fosse um número seria o número um, porque dela recebemos o primeiro suspiro, o primeiro abraço, o primeiro alimento, o primeiro conselho, o primeiro ralhete.

A primeira vez que deixei o meu filho na creche, à porta da sala estava a seguinte frase: “Só diz que a dor de parto é a maior das dores, quem nunca deixou o filho pela primeira vez na creche”. Parecendo assustadora, sobretudo para uma mãe que acabava de chegar a essa condição, a frase descreve na perfeição a dor de deixar um filho, que fez parte do nosso corpo durante nove meses e do qual não nos separámos durante outros tantos, pela primeira vez, num local estranho, com pessoas desconhecidas. É como deixar algo de nós.

A boa notícia é que a dor passa, mas a preocupação vai acompanhar-nos ao longo da vida, seja qual for a idade do nosso filho, seja qual for a idade da nossa mãe. A minha até costuma dizer, “filhos criados, sarilhos dobrados”.

Ser mãe muda uma mulher. Não deixa de ser mulher, amante, amiga, mas deixa de comprar um vestido para comprar fraldas, passa a ter horários incompatíveis com os das amigas e a estar demasiado cansada e com falta de disposição para uma noite de glamour. E tudo isto é normal, natural e também passageiro.

O que não passa é a mudança que a condição de mãe proporciona à mulher tornando-a mais sensível, tolerante, forte e até uma heroína.

Recordo o dia em que tive que construir uma capela com o meu filho. Era um trabalho de casa de estudo do meio e uma dor de cabeça para quem nunca teve teve jeito para trabalhos manuais. Várias tardes depois, alguns dedos queimados de cola quente e um par de calças de ganga estragadas, a capela ficou pronta e linda, pelo menos pensava eu, até ver as capelas que já estavam em exposição: autênticas obras de arte, algumas até tinham luzes! A minha vontade foi voltar atrás, até olhar para o sorriso do meu filho, radiante com a capela construída com a mãe, entre gargalhadas e trapalhadas. 

E eu, que passei a trabalhos manuais porque a minha irmã tem mãos de fada, (espero que a minha professora não esteja a ler isto!) de repente, tornei-me uma heroína dos trabalhos manuais, aos olhos do meu filho.

Para uma mãe não há impossíveis!

Mesmo para as mães que trabalham e deixam os filhos de manhã na escola, à tarde nos tempos livres e a noite é demasiado curta para assegurar banho, jantar, trabalhos de casa, roupa e lanche para o dia seguinte, que é também dia de natação e precisa de uma mochila suplente, ou de futebol, o que também não dispensa mochila extra...

E entre a supressão das necessidades elementares e intelectuais, porque urgentes, vamos adiando as importantes: passar mais tempo com os nossos filhos e ter tempo para nós. Que é algo que as mães têm dificuldade em admitir mas que também é preciso, e isso não nos torna piores mães, pelo contrário. “Mãe é sempre mãe, e a mulher é quando ela quer”, os nossos antepassados sabiam mesmo como resumir tudo numa frase!

Uns entendem que a melhor mãe é aquela que se vai tornando cada vez mais desnecessária, sinal de que cumpriu o seu papel dotando o filho de todas as ferramentas para seguir o seu caminho. Outros dizem que só nos tornamos adultos quando perdemos a mãe, felizmente ainda não comprovei esta teoria, mas compreendo o alcance.

Enquanto tivermos a nossa mãe teremos sempre um apoio, um ombro amigo, alguém que sabemos que fará de tudo para nos ver felizes, ainda que já tenhamos todas as ferramentas e as asas para voar. E mesmo quando ela partir, uma parte dela fica, a mesma que nos custou tanto deixar, naquele primeiro dia de creche.

Paula Brito

13 de julho de 2019

 

Campo de trigo com corvos de Vicent Van Gogh

Dia de passeio...ao mundo das cores

 

E se o mundo fosse a preto e branco? Os dias seriam todos cinzentos e o amarelo só existiria nos sorrisos! Se os sorrisos forçados são amarelos, de que cor serão as espontâneas gargalhadas?

A cor da luz, do sol e do ouro, é provavelmente a mais ambígua e contraditória das cores: o amarelo que traz a luminosidade é o mesmo que simboliza a hipocrísia e o ciúme.

Vicent Van Gogh foi, provavelmente, o pintor que explorou o amarelo mais intensamente “o amarelo é uma cor capaz de encantar Deus”, dizia o pintor de girassóis que utilizou o amarelo em quase todas as suas obras, sendo “Os 12 girassóis numa jarra”, “A casa amarela” e o “Campo de trigo com corvos”, as mais emblemáticas do ponto de vista da cor que dá luz ao dia, calor ao corpo e alegria à vida.

Mas Van Gogh também utilizava cores frias como o azul. A cor da tranquilidade, harmonia e serenidade anda de mão dada com o amarelo nas obras de Van Gogh. No seu mais famoso quadro “Noite estrelada”, que pintou no asilo pouco tempo antes de por termo à vida, o pintor deu um novo significado ao azul celeste.

Para Van Gogh, há cores que não existem sem o azul, como é o caso da cor laranja. O pintor holandês pintou um auto retrato nessa cor e disse a propósito que “não existe laranja sem azul”, referindo-se à força do contraste entre as duas cores.

A mais vibrante das cores, que foi fruto antes de ser cor, está associada à criatividade na cultura ocidental. Laranja é, no Oriente, a cor da coragem e do espírito de sacrifício. Dalai Lama e outros monges do budismo, envergam quase sempre túnicas cor de laranja. Ao contrário do cristianismo, que associa a cor à traição, é por esse motivo que Judas é muitas vezes representado, na pintura, com o manto cor de laranja.

E se o laranja não tem superlativos na língua portuguesa, o verde transforma nomes em duplos adjectivos: verde água, verde garrafa, verde esmeralda, verde musgo, verde lima, verde tropa, verde azeitona, verde maçã... Existem 100 tons de verde catalogados e outros tantos significados para esta cor da esperança, da natureza, do ambiente, da felicidade, se estivermos na India, ou proibida, se o destino for a Indonésia. O verde é a cor oficial da Irlanda, da independência no México e de ideologia política em Portugal.

Van Gogh, gostava de usar o verde esmeralda nas suas pinturas porque o pigmento possuía efeitos colaterais, degradando espontaneamente e emanando vapores com alguma toxicidade. Aliás, os venenos são todos representados na cor verde, que é também a cor da raiva. E antes que o vermelho fique verde de inveja, vamos falar da cor da paixão.

O vermelho ou encarnado, é uma cor quente, urgente e proibida. Cor do pecado para a religião e do espírito revolucionário para a política, o vermelho é também a cor do amor e do perigo. Há um provérbio que diz que “todo o sangue é vermelho”, mas isso é o povo que diz, porque para a nobreza o sangue é azul, tal como a bandeira da monarquia.

A cor preta, tão temida pela ausência de luz e de futuro, é também a cor do luto para a cultura ocidental. Mas há um lado elegante e cerimonioso nesta cor, “com um vestido preto, nunca me comprometo.”

Já o branco pode ser decomposto em todas as cores, resultando, na natureza, num arco-iris. O arco das cores que a iris do olho observa, a mesma que fica a dever o nome à deusa mensageira dos deuses.

As cores são, afinal, essenciais à vida: pintam-nos os dias, iluminam-nos as noites, regulam-nos o trânsito, estabelecem prioridades, alteram-nos o humor e dão significado aos gestos e às flores.

Paula Brito

6 de julho de 2019

 

Dia de Passeio... a Florença apreciar a mais bela filha do céu e do mar

 

“O nascimento de Vénus” é um dos maiores tesouros da Galleria Uffizi, em Florença. O quadro, que mede quase dois metros de altura e três de comprimento, ocupa por inteiro uma das paredes da Galleria, que se estende numa sucessão de fachadas ao longo da Via dei Magistrati.

O edifício, construído em 1561 para albergar as repartições burocratico-administrativas da Florença republicana, guarda hoje extraordinárias obras do Renascimento dos mais importantes artistas florentinos, como Sandro Botticelli que pintou “O nascimento de Vénus”, em 1486.

O nu feminino, quase em tamanho real, acabou com o tabu instaurado pelo cristianismo que apenas permitia que Evas pecadoras se apresentassem despidas nas obras de arte. “O Nascimento de Vénus” foi o renascimento da beleza feminina na arte.

O artista, inspirado nos modelos antigos da estatuária grega, pintou a deusa da beleza e do amor apoiada numa só perna, num gesto sedutor em perfeito equilíbrio com o gesto de pudor com que esconde parte da nudez.

A obra, é uma das quatro, do pintor de madonnas e de motivos religiosos, inspiradas na mitologia. Gerada pela espuma do mar e nascida de uma concha de madrepérola, Vénus é filha de Júpiter, deus do céu, e de Dione, deusa das ninfas.

Do mito de Vénus faz ainda parte a sua chegada à ilha de Citera que este quadro de Botticelli representará. A ilha grega foi durante muito tempo conhecida pelos seus pescadores de murex, de onde era extraída a cor púrpura. Conhecida pelos ingleses como venus comb murex, isto é, pente de Vénus, provavelmente pela forma de pente do molusco, é capturado na terra que a deusa do amor pisou pela primeira vez, fazendo nascer uma roseira, simbolicamente enrolada à mulher que estende o manto púrpura a Vénus.

O movimento das roupas, das águas do mar, das rosas que caem, dos cabelos, dão vida ao quadro e são provocados pelo sopro de Zéfiro, o Deus do vento do oeste, o mais suave de todos os ventos, mensageiro da Primavera.

Zéfiro, (o mesmo que fecundava as éguas da Península Ibérica tornando os cavalos lusitanos invulgarmente velozes), Vénus e as Horas, filhas de Zeus, aparecem também no quadro “Primavera” de Botticelli, outra das suas grandiosas obras mitológicas que pode ser apreciada na Galleria Ufizzi. Enquanto que a “Primavera” faz parte do inventário de Lorenzo de Medici, ignora-se quem teria encomendado o “Nascimento de Vénus” que foi pintado quatro anos depois.

Certo é que as duas obras se encontravam no castelo de uma vila, nos arredores de Florença, o que as pode ter salvo da destruição, da fúria e puritanismo do monge Savonarola, que depois de ter expulso a família Medici de Florença, instaurou um regime severo, destruindo, na terça–feira gorda de 1497, todas as imagens “lascivas”, obras de arte, livros e outros objectos na sua “fogueira das vaidades”.

Há quem defenda que Sandro Botticelli foi um dos seguidores deste monge, a verdade é que a crise religiosa e política que se abateu em Florença e no pintor acabou por se traduzir nas suas obras mais tardias, como é o caso de “A Natividade Mística”, a única obra assinada e datada pelo mestre renascentista, com uma iconografia incomum para o tema.

Sandro Botticelli, até então um devoto cristão protegido pela família Médici, satisfazia encomendas de quadros religiosos, sobretudo retratos, que correspondem à maioria da sua produção artística. Foi entre o cristianismo e o fanatismo de Savonarola, que Botticelli pintou as suas duas obras maiores, “O nascimento de Vénus” e a “Primavera” - pagãs, livres, alegres e eternas.

Se fossem filmes seria uma sequela, mas cronologicamente não faz sentido, já que “O nascimento de Vénus” foi pintado depois de “A Primavera”. Esta última sabe-se quem a encomendou, mas ainda hoje permanece o mistério sobre quem terá encomendado o Nascimento de Vénus a Botticelli. Gosto de pensar que ninguém, pintou-a por puro prazer. E quando o prazer e a genialidade andam juntos, normalmente nasce a Perfeição.

“Vejo a Perfeição em sonhos ardentes, Beleza divina aos sentidos ligada, cantando ao ouvido em voz olvidada, que do peito irrompe em raios candentes que não posso prender. Seu cabelo vem pelo peito inocente onde, confundidos, o ideal e o real são tecidos em algo de alegre que ao céu fica bem...”

No poema “Perfeição”, os sonhos ardentes de Fernando Pessoa podiam muito bem ser sobre a Vénus de Botticelli.

Paula Brito

29 de Junho de 2019

Dia de passeio... à gloriosa cidade da Egitânia

Idanha a Velha é das povoações mais antigas de Portugal, documentada desde o ano 16 AC tem uma carga histórica e um património arqueológico de valor incalculável. Tem também um lugar de destaque no mapa das estações arqueológicas do país, onde a investigação é permanente, por isso, nunca está tudo dito sobre esta aldeia histórica.

Hoje habitam pouco mais de meia centena de pessoas dentro das muralhas que, noutros tempos, já albergaram mais de quatro mil habitantes. Foi uma grande cidade romana até ao século IV, pertencia à Hispânia e a sua capital era Mérida Augusta.

O cartão de visita, à chegada, é a sua muralha ovalada com uma extensão de 745 metros e as suas sete torres defensivas. Construída no século IV para proteger os seus habitantes, hoje a muralha foi recriada com uma estrutura em ferro para manter a segurança dos seus visitantes que dali têm uma vista privilegiada sobre Idanha a Velha.

A casa da família Marrocos é a maior construção dentro das muralhas, ocupando um quarto da aldeia. Data dos anos 40 do século XX, mas tem um magnífico trabalhado de cantaria nas suas janelas e varandas, os canteiros conseguiram entrelaçar a pedra com a mesma arte com que as bordadeiras entrelaçam a linha.

Para ir do maior ao mais grandioso e importante edifício da aldeia, do ponto de vista histórico e patrimonial, terá que passar pela secular amoreira que dá nome ao largo e cor ao chão. Quem quiser tirar partido da sua sombra, nesta época do ano, sujeita-se à queda do fruto que vai pintando de vermelho as pedras da calçada.

A sé de Idanha a Velha, a igreja de Sta. Maria ou a igreja velha, foi construida no século IX, mas provavelmente já teria sido construída sobre uma outra, do século VII. Deixamos essa investigação para os arqueólogos e historiadores e detemo-nos na capela, dedicada à Nossa senhora do Rosário. No altar mor sobressai o fresco dedicado a S. Bartolomeu, do Sec. XVI, com a particularidade de ter uma faca na mão direita e o diabo aos pés, que teria acabado de matar, acabando com o mal do mundo.

Há também quem defenda que o templo tenha sido utilizado como mesquita pelos muçulmanos, sobretudo devido ao poço que ali existe nas imediações, e que serviria para a obrigatória lavagem de mãos e pés antes da entrada no local sagrado.

Certo é que as alterações arquitectónicas do templo ao longo dos séculos, acompanharam a história de Idanha a Velha que conheceu, na época visigótica, sobre o nome de Egitânia, momentos áureos de desenvolvimento, foi centro de cunhagem de moedas de ouro e a primeira sede da diocese. É por esse motivo que os habitantes da Guarda se chamam egitanienses, porque além da sede da diocese levaram também o gentílico.

Do largo da Sé ao arquivo epigráfico é um salto. A estrutura é assumidamente contemporânea mas o seu interior guarda uma vasta coleção epigráfica, inscrições nas pedras que contam a história da cidade romana. Cada epígrafe conta uma história de vida e com elas se conta a história de uma cidade.

No centro, as gravações na pedra, em latim, estão traduzidas para português e inglês, como a de um escravo que se tornou liberto e que fez a epígrafe para oferecer ao seu deus favorito, Marte. Ou a de Shonio, filho de Rufino, de 25 anos, com a inscrição “que a terra te seja leve. Olá, tu que leste, já leste, passa bem”. Isto porque a necrópole era normalmente à entrada das cidades romanas, de percurso e leitura obrigatória, como se fosse um livro de história, sobre a localidade, escrito na pedra.

Outro ponto de visita obrigatória, é o lagar de varas, também pertença da família Marrocos, data do século XIX e esteve a laborar até 1959, chegando a produzir 19 mil litros de azeite do ano. Hoje está totalmente recuperado e é um museu de arqueologia industrial que retrata o ciclo do azeite. 

Idanha a Velha começa a perder importância quando terminou a pacificação na Península Ibérica, e com ela, o domínio do império romano. Estratégica do ponto de vista de passagem e fertilidade das terras, Idanha a Velha era, do ponto de vista militar, geograficamente vulnerável por se encontrar num vale, ao contrário de Idanha a Nova, hoje a sede de concelho.

Os árabes ocuparam a cidade até à sua tomada por D. Afonso III, rei de Leão, durante a reconquista. Já fazia já parte integrante do condado portucalense aquando da fundação de Portugal, mais tarde D. Afonso Henriques entregou-a aos templários. Em 1229 D. Sancho II deu-lhe foral, D. Dinis incluiu-a na Ordem de Cristo, D. Manuel, em 1510, concedeu-lhe novo foral de que o pelourinho, símbolo da justiça e do poder local, é testemunho.

O artesanato típico da aldeia e o seu maior embaixador é o adufe. O instrumento de percussão que na romaria da Sra. do Almortão as mulheres erguem aos céus, manuseando o quadrado de pele esticada de animal que guarda pedras no seu interior.

“Senhora do Almortão, minha tão linda raiana, virai costas a Castela não queirais ser castelhana”.

Por fim, a ponte romana sob o rio Pônsul, que contorna toda a povoação, com as suas proas de pedra viradas a nascente, pedras gigantes que, como tudo o que era construído pelos romanos, tinham uma razão de ser: travavam os troncos das árvores ou outros objectos trazidos pela corrente, em dias de tempestade. Estes romanos pensavam em tudo! Teria dito Astérix a propósito!

E pensavam mesmo, até as pocilgas ou furdas foram construidas do outro lado da ponte. Era lá que se criavam os porcos, perto da povoação mas longe o suficiente para evitar maus cheiros. Em Idanha a Velha ainda se veem os bancos de pedra onde era feita a matança do porco.

Os homens e mulheres à soleira da porta, "vestidos de preto até à alma", são os últimos guardiões desta aldeia histórica, classificada como monumento nacional, que foi outrora a gloriosa cidade da Egitânia.

Paula Brito

22 de junho de 2019

Dia de passeio… pelas memórias

 

Chamava-se Margarida. A minha professora da primária tinha nome de flor. Ela adorava as minhas tranças e eu a forma como ela andava, gesticulava, sorria, falava, contava histórias... Ainda me lembro da voz dela, límpida, segura, fazia-se ouvir em toda a escola e até os pássaros, às vezes, espreitavam à janela, curiosos com o melodioso tom.

A minha professora da primária, que tinha nome de flor, andar de rainha e voz de rouxinol, morava na aldeia, no tempo em que os professores criavam raízes na comunidade e eram responsáveis pela formação de gerações. Ela e o marido, o professor Fernandes, que tinha uma forma muito peculiar de espirrar e que traduzido para onomatopeia seria qualquer coisa como “Frrricha”, eram eternos namorados. Todos os dias iam a pé para a escola como se todos os dias fossem de passeio.

De todos os dias de passeio, o que eu mais gostava era o dia da espiga. Saíamos para o campo, e o que não faltava por ali era campo, entoando canções, de mochila às costas com o piquenique que haveríamos de partilhar na mais bonita das sombras. O cheiro e as cores das marcelas, dos rosmaninhos e das primaveras acompanhavam-nos em todo o percurso e à chegada sabíamos que tudo ficaria registado nas redações. Esses diários de ocasião que eu adorava escrever, mas que gostava pouco de desenhar ou colorir, dada a minha falta de jeito para manualidades.

A minha escola cheirava a livros, a cola, a borracha, a criatividade, e além das papoilas, que cresciam teimosas no jardim, a sala tinha um ramo de flores em cada mesa, que era como eu imaginava os lápis de cor dentro dos copos coloridos, e tinha também uma Margarida “que tudo nos ensinava, a partir do ABC”.

Esta era a deixa de uma peça de teatro que ensaiámos para o espectáculo do final de ano, mas também tínhamos um no Natal, o que nos “obrigava” a andar sempre a aprender músicas, teatro e poesia.

Lembro-me de recitar a “Balada da neve”, de Augusto Gil, que terminava assim “há quanto tempo a não via e que saudade Deus meu”. Mais tarde, descobri que o poema não terminava ali, e o que eu tinha para mim como um hino à neve, era afinal um poema que, através da neve, demonstrava o sofrimento de uma criança. Percebi também que a minha professora nos quis poupar do sofrimento, quis primeiro que gostássemos de poesia, mais tarde saberíamos que poesia não era só alegria, também rimava com dor.

Uma dor semelhante àquela que senti quando soube que a professora Margarida tinha partido para outro jardim. Dor e arrependimento por nunca ter levado avante a ideia de lhe fazer uma homenagem. Um dia vou fazer uma homenagem à minha professora, um dia vou visitar aquela amiga distante, um dia vou dizer àquela pessoa o quanto a admiro, um dia vou fazer aquela viagem, um dia... e quando damos por isso já passaram todos os dias por nós, indefinidos.

Hoje é o dia, tardio, mas definido. O dia de agradecer à minha professora da primária que me despertou o gosto pela leitura, pela escrita, pelos números, pela natureza, pelo teatro, pela música, pela poesia. Depois a aprendizagem na vida foi mais fácil, porque na base estava o gosto pelo saber.

Uma homenagem extensível a todas as Margaridas que passaram pelas nossas vidas, espalhando sementes que germinaram, e a todos os que continuam a ser os jardineiros da educação no nosso país, mesmo que por eles tenham passado, indefinidos, 9 anos, 4 meses e dois dias.

Paula Brito

15 de junho de 2019

 

As Bodas de Caná

Dia de passeio... à Veneza do Séc. XVI

 

Apreciar o quadro “As bodas de Caná”, de Paolo Caliari, mais conhecido por Veronese, por ser de Verona, é viajar até ao Séc. XVI, quando a opulenta Veneza ainda vivia os resquícios de uma época de poder conquistado pelo negócio das sedas e das especiarias, que transformou "o mar adriático em mar veneziano", e Veneza na maior cidade portuária do mundo.

Apreciar aquela que é uma das maiores obras jamais pintadas sobre tela, com os seus quase sete metros de largura e 10 de comprimento, é também perceber que, na altura em que foi pintada, entre 1562 e 1563, foi um tempo de Inquisição. Vigorava o Concílio de Trento que acabou com a liberdade nas relações entre a igreja e a arte.

Veronese pintou este quadro para o refeitório do convento Beneditino de San Giorgio Maggiore em Veneza. Os monges escreveram, no contrato que assinaram com o pintor, que queriam um quadro “tão largo e tão alto como a parede”, o pretexto era o primeiro milagre de Cristo descrito na Bíblia, quando Jesus transformou água em vinho, durante um casamento, em Caná, na Galileia.

Veronese cumpriu o contrato e fez-lhes a vontade, pelo menos no tamanho, já que no conteúdo, o pintor maneirista pintou o quadro à sua maneira, misturando épocas separadas por séculos, personagens bíblicas com personagens da altura, onde o temporal parece mais importante que o espiritual, mostrando, de pano de fundo, uma cidade do Renascimento, transformando as bodas de Caná nas bodas de Veneza.

O quadro é uma crítica à sociedade veneziana da época. Os convivas, ricamente vestidos com sedas de motivos exóticos, ainda se consideravam os senhores do mar. As pratas reluzentes onde os comensais cederam ao pecado da gula, mostram a ostentação de uma Veneza em queda desde a perda de Constantinopla, em 1453, e desde que os portugueses descobriram, em 1498, o caminho marítimo para a Índia.

Mas Veronese, nesta obra de arte, ousou também pintar os criados, que até então não apareciam nas pinturas. Um olhar que não agradava à Inquisição. Veronese chegou a ser chamado pelos inquisidores por pintar cenas vulgares num tema bíblico, como servidores, camponeses e até cães! Não a propósito das Bodas de Caná, mas sim de um outro quadro, pintado 10 anos depois, que se chamava “Ceia” e que, depois da “visita” à Inquisição, passou a chamar-se “Ceia na casa de Levi”.

Nas "Bodas de Caná" tudo passou despercebido à Inquisição, até o facto de Veronese ter relegado para segundo plano o motivo bíblico. Jesus aparece ao centro da mesa, distinguindo-se apenas das restantes 130 personagens do quadro pela auréola, ao lado de sua mãe, ambos convidados dos noivos, que é o casal sentado no início da mesa, do lado esquerdo.

A determinada altura faltou o vinho. Como é descrito no Evangelho, é Maria que informa Jesus do sucedido e diz aos criados para fazerem o que Jesus lhes disser. Ele manda encher as vazilhas de água que transforma em vinho, é o seu primeiro milagre descrito pelo evangelista João, no novo testamento.

Dar de comer a quem tem fome multiplicando pães e peixes, curar os doentes ou ressuscitar os mortos, ainda se compreende, mas transformar água em vinho numa boda farta, onde todos já teriam bebido mais do que a conta, só pode ser inexperiência, ou então, fez o que um filho deve fazer: nunca negar um pedido da mãe!

Mas Veronese não descurou o espiritual, no plano acima de Cristo, continua a ser preparada carne, quando nas mesas já só se vê fruta e sobremesa. Para quê sacrificar o cordeiro quando o repasto está no fim? Com este pormenor, o pintor quis representar a morte de Cristo, sendo o vinho o sangue que jorrou quando foi crucificado. Veronese deu outro significado à expressão ainda hoje utilizada na eucaristia: “Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.” Pediria Veronese piedade à ostensiva Veneza?

O que passou despercebido à Inquisição, também terá passado despercebido aos monges beneditinos que, segundo as regras monásticas, não podiam erguer os olhos do prato durante a refeição. O quadro esteve no refeitório do mosteiro durante 235 anos… até à chegada de Napoleão.

Terá sido a grandiosidade da obra que despertou a atenção do excêntrico imperador francês. Napoleão saqueou, entre outras preciosidades, as Bodas de Caná de Veronese que se rasgaram na viagem. Chegado a Paris, em 1797, o quadro foi recuperado e exposto, e é lá que ainda pode ser visto, no Museu do Louvre, ironicamente na mesma sala onde se encontra o mais pequeno mas mais procurado quadro do museu – a Mona Lisa de Leonardo da Vinci.

Tal como os monges que não podiam erguer os olhos do prato, não apreciando como merecia ser apreciado o quadro de Veronese, também os visitantes do Louvre, ofuscados pela maior atração do museu, passam ao lado de uma das mais grandiosas obras do Renascimento – "As Bodas de Caná" de Paolo Veronese.

Paula Brito

8 de junho de 2019

 

Dia de passeio... ao museu do pão em Seia

 

“Nem mesa sem pão, nem exército sem capitão”

É um dos mais de quinhentos provérbios relacionados com pão, recolhidos na pesquisa realizada durante seis anos sobre as tradições, a história e a arte do pão em Portugal. Um trabalho que serviria de suporte à criação do museu do pão que abriu ao público em 2002, na cidade de Seia, em plena Serra da Estrela.

“Muito pão ou pouco pão, as colheitas o dirão”

Na primeira sala é reconstituído o ciclo do pão. Primeiro lavrar, em Novembro, quando a semente é lançada à terra. Lá para Maio, a seara estará madura e pronta a ceifar. Depois atar, juntar e retirar dos campos que a ceifeira mutilou. Fica o restolho a gemer até nova sementeira. O ciclo do pão, na voz de Mafalda Veiga, é como o da vida, “há que ser trigo, depois ser restolho, é preciso penar para aprender a viver”.

Chegado à eira, fica o cereal a secar à espera do dia da malha, que era de convívio e de festa. No norte eram os moinhos de água que transformavam o cereal em farinha, no sul, os de vento.

"Trigo na eira, pão na masseira"

Já na masseira, a farinha, com água, sal e fermento, era amassada “até desagarrar das mãos”. Depois umas cruzes na massa e uma pitada de fé da padeira: “Nosso senhor te acrescente como a água da nascente”.

Enquanto repousa a massa, o forno é deitado a arder, se a mão cheia de farinha vier loirinha o pão pode ir a cozer.

As alfaias e utensílios que contam o ciclo pão, no museu, são todas peças portuguesas e originais. Na sala, onde existem citações de Guerra Junqueiro e do padre António Vieira, os cereais também falam: - Sou o dourado milho que afasta toda a pobreza, de todas as terras que perfilho, comigo nunca falta pão na mesa. O trigo responde: - Ando nos palácios dos reis, nas festas e nos jantares, encho os celeiros dos ricos, sou a história dos altares.

“Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”

Entramos na segunda sala, que conta a história do pão em Portugal, desde 1640 até 1974, onde se destacam alguns documentos régios, de D. João IV, que falam do problema do abastecimento do pão ao reino.

Sendo a base da alimentação dos portugueses ao longo dos séculos, o pão sempre esteve associado às movimentações e tumultos sociais da história. A questão era fixar ou não o preço do pão. Uma medida que não agradava aos moleiros que sentiam que não lhes estava a ser pago o preço justo. A alternativa era falsificar as farinhas misturando-lhes cale e até serradura. Existem várias caricaturas a satirizar esta questão, entre elas, a de Rafael Bordalo Pinheiro.

“Eu sou o pão da vida”

Há duas religiões para quem o pão é sagrado: o judaísmo e o cristianismo.

O pão hebraico, pão ázimo, utilizado no ritual da páscoa judaica, tem aspecto de bolacha, uma vez que não leva fermento, já que, durante a fuga do Egipto não havia tempo de o deixar fermentar.

O pão cristão vai recuperar a herança do antigo testamento e acrescentar a tradição do novo testamento. Na eucaristia o pão é representado em forma de hóstia: “tomai e comei todos este é o meu corpo”. Na bíblia, a palavra pão aparece mais de 200 vezes.

“Nem só de pão vive o homem”

Depois de passar pelo bar, que tem uma biblioteca de consulta livre e uma esplanada com vista para a Serra da Estrela, encontra a sala onde se fez arte a partir do pão. Porcelanas, loiças, vidros, metais, pratas, pinturas, cristais, azulejos, todos os objectos têm um denominador comum: o pão.

Há três peças em madeira que são uma raridade, chamam-se marcas de pão e serviam para carimbar a massa para saber a que família pertencia o pão que saía do forno comunitário.

É nesta sala que podemos encontrar o pão de todas as regiões do país e uma galeria com os 34 reis de Portugal, de D. Afonso Henriques a D. Manuel II, com o rosto em tamanho natural feito em massa de pão, no próprio museu.

“A mão que dá o pão, dá a educação”

A última sala, pedagógica, é reservada ao público infantil. É lá que as crianças aprendem todo o ciclo do pão com a ajuda de personagens animadas, que ensinam os mais pequenos que a história do pão não começa nem nas padarias nem nas prateleiras dos hipermercados.

Paula Brito

1 de junho de 2019

Dia de passeio...à vila histórica de Belmonte

 

O castelo de Belmonte, mandado construir por D. Afonso III, no século XIII, é o monumento mais emblemático da vila que exibe o título de berço de Pedro Álvares Cabral, e onde há séculos reside uma das maiores comunidades judaicas do país.

A função militar do castelo, erguido no monte da Esperança, ficou relegada para segundo plano quando, em 1466, D. Afonso V o doou para ser a casa senhorial da família Cabral, que ali residiu até ao grande incêndio que a obriga a mudar-se para o solar dos Cabrais, onde hoje está o museu dos descobrimentos.

Foi durante o período em que ali residiu a família Cabral que foi construída a panorâmica janela manuelina, um dos mais belos e emblemáticos elementos do castelo medieval, classificado como monumento nacional. Tal como a igreja de S. Tiago, às portas do castelo.

No interior do templo, do século XII, sobressai uma pietá em granito, esculpido numa pedra só, a pia batismal onde foi baptizado Pedro Álvares Cabral e o panteão dos Cabrais, do séc. XV, onde está sepultada a família do navegador.

Pedro Álvares Cabral nasceu no castelo de Belmonte em 1467/68, filho de Fernão Cabral, alcaide mor de Belmonte, aos 11 anos mudou-se para Lisboa onde estudou literatura, história, ciência e artes militares. Pedro Álvares Cabral tinha 33 anos quando D. Manuel o nomeou capitão mor de uma armada, de 10 naus e três caravelas, que tinha como missão restabelecer as relações comerciais e diplomáticas com o Oriente.

A história é contada no museu dos descobrimentos que coloca ainda a descoberto a cultura das terras de Vera Cruz, o nome dado inicialmente por Pedro Álvares Cabral ao Brasil que avistou no dia 22 de Abril de 1500, ao fim de 43 dias de viagem, depois de se afastar da costa africana.

A 24 de Abril, devido à chuva e ao vento, a armada procurou uma enseada, a que deu o nome de Porto Seguro, onde permaneceu até 2 de Maio. Cabral tomou posse, em nome da coroa portuguesa, da nova terra, e enviou uma das embarcações para Portugal, com a notícia e a carta de Pero Vaz de Caminha, considerada a certidão de nascimento do Brasil.

Pedro Álvares Cabral retoma o caminho do oriente, mas ao dobrar o cabo da Boa Esperança perde quatro navios, entre eles o de Bartolomeu Dias que, ironicamente, o tinha descoberto e dobrado 12 anos antes.

Pero Vaz de Caminha também não regressou a Lisboa, o escrivão do rei morreu depois de um ataque em Calecute onde a missão portuguesa perdeu 30 homens. Pedro Álvares Cabral chegou a Lisboa a 31 de Junho de 1501, com apenas quatro das embarcações iniciais, foi a sua última missão. Morreu em Santarém, em 1520, onde está sepultado, na igreja da Graça.

Pedro Álvares Cabral tem uma estátua em Belmonte, uma peça única de almirante, navegador e cristão, que olha para o outro lado da rua, onde ainda hoje residem os descendente do povo perseguido pelo mesmo rei que mandou Pedro Álvares Cabral para o Oriente.

Os judeus de Belmonte viveram em segredo durante séculos, praticavam o judaismo em casa, só revelavam aos filhos a verdadeira identidade a partir de uma certa idade, não casavam fora da comunidade, e assim se mantiveram em Belmonte onde ainda hoje residem cerca de 200 descendentes de cristãos novos, como passaram a ser designados os judeus “convertidos”.

É no museu judaico de Belmonte que está guardada a história da identidade hebraica nacional. Uma visita obrigatória em dia de passeio pela vila. A mais antiga peça do museu é uma candeia com cerca de dois mil anos que marca a diáspora do povo judeu pelo mundo, já o primeiro objecto que marca a presença judaica em Portugal, é um conjunto de moedas de um rei guerreiro que foram encontradas em Mértola, no primeiro século Depois de Cristo.

Numa das vitrines sobressai um rolo gigante, “sefer torah”, o antigo testamento escrito em hebraico, em pele genuína, que se lê da direita para a esquerda, de cima para baixo, sem ser tocado, para isso tem um ponteiro que ajuda na leitura.

Um memorial das vítimas da inquisição em Portugal, mais de 40 mil, 1175 das quais condenadas à morte na fogueira, também faz parte do museu que conta a história dos judeus de Belmonte que, já na época medieval, era referida como comunidade judaica, tal como a Covilhã, uma das maiores do país.

Além do museu judaico e do museu dos descobrimentos, Belmonte tem ainda um museu que permite uma viagem ao longo de 240 quilómetros, tantos quantos tem o percurso do rio Zêzere.

Situado na tulha dos cabrais, o Ecomuseu do Zêzere divide-se em três fases, tantas quantas as idades do segundo maior rio exclusivamente português, a seguir ao Mondego, e do maior afluente do rio Tejo.

A primeira fase, da infância, começa a 1800 metros de altitude, na Serra da Estrela, onde nasce, até Valhelhas. É a este percurso que está associada à flor que dá o nome à Serra da Estrela, a saxifraga stellaris, em forma de estrela, saxi fraga, significa que nasce por detrás das pedras.

A segunda idade, a da juventude, vai de Valhelhas até Silvares, e de um rio de montanha, o Zêzere passa a um rio de planície, correndo tranquilo, ao mesmo tempo que torna produtivos os solos da Cova da Beira.

Na fase adulta, de Silvares a Constância, onde desagua, o rio regressa às montanhas, onde corre a grande velocidade, esculpindo rochas e cascatas.

Antes de sair de Belmonte, entre no museu do azeite que nasceu da recuperação de um antigo lagar dos anos 40, do século XX. É lá que vai descobrir o ciclo do azeite que começa com a apanha da azeitona, um trabalho duro que consistia em varejar as oliveiras, isto é, bater com uma vara nos ramos para fazer cair a azeitona.

Em anos de contra safra, ou seja, de mau tempo para a produção, os oledos, a designação antiga de olivais, tinham pouca galega, que é a variedade de azeitona mais comum em Portugal.

Mas isso não impedia a realização de lagaradas, uma refeição entre lagareiros e convidados, para festejar o primeiro azeite, onde não faltava a tibórnia, que é um saboroso pão quente regado com azeite que, segundo o poeta, “dá luz à mina, gosto ao pão e cor à vida.”

Paula Brito

25 maio 2019

 

Dia de passeio… ao museu dos lanifícios da Universidade da Beira Interior

 

“Se os filhos de Adão pecaram, os da Covilhã sempre cardaram.”

O aforismo, do Séc. XVIII, à entrada do museu, diz muito da Covilhã e do que representou esta indústria na sua história. Uma história que não é fruto do acaso, mas de um conjunto de condições, naturais e ambientais, que transformaram a Covilhã no local ideal para ali crescer a indústria das lãs.

Condições propiciadas pela Serra da Estrela e pela procura dos seus verdes pastos quando na planície a terra já era seca. Local priveligiado para a criação de gado, plataforma das rotas da transumância, foi ali, onde abundava a matéria-prima, que Marquês de Pombal decidiu mandar construir a real fábrica de panos, em 1764, para fornecer os tecidos das fardas do exército português. O que se passou a seguir foi um período áureo de desenvolvimento do sector, da Covilhã e da região.

A documentá-lo está o mapa que sobressai numa das paredes do museu onde estão assinaladas as localidades onde existiam oficinas de fiação que trabalhavam exclusivamente para a real fábrica: de Alpedrinha a Penalva, de Penamacor a S. Vicente. Uma importância que ganha uma nova dimensão quando, em 1777, Marquês de Pombal manda construir, no Fundão, uma nova manufactura, o edifício que hoje acolhe os paços do concelho.

O mapa de pessoal da real fábrica dos panos chegou a ter inscritos mais de quatro mil trabalhadores, na fábrica ou nas próprias casas. Este método de trabalho, à distância, manteve-se praticamente até à actualidade com as fábricas a continuarem a procurar o minucioso e precioso trabalho das metedeiras de fios e das cerzideiras.

Em 1788, já no reinado de D. Maria, a fábrica foi privatizada tendo sido adquirida pelos contratadores do tabaco que vêm investir os lucros da produção na Covilhã. É aos “novos” proprietários que se fica a dever a construção do edifício em frente à real fábrica, que depois da tinturaria precisava de uma grande casa para os teares.

Com as invasões francesas, no início do Séc. XIX, a indústria dos lanifícios assiste a um declínio, e em 1820 é um covilhanense, Pessoa de Amorim, que se candidata a gerir a fábrica, até 1848. A partir daí entra em decadência, até ser expropriada pela câmara da Covilhã para ser ali instalado, em 1878, o quartel da infantaria 21 e o batalhão de caçadores 2.

Quando o quartel foi extinto, ainda ali funcionou uma repartição de finanças, mas em 1974 o edifício foi cedido para ali ser construído o então Instituto politécnico da Covilhã, que viria a transformar-se na Universidade da Beira Interior (UBI).

Em 1975 começaram as obras no local que colocam a descoberto uma construção anterior ao edifício do quartel. Na altura ninguém sabia que tinha sido uma fábrica real de Marquês de Pombal, todos o conheciam como edifício do quartel.

As obras trazem à luz do dia estruturas que levam os estudiosos a um engano: pensou-se, na altura, que era a fábrica velha, a primeira manufactura da Covilhã, dita do Conde de Ericeira, construída um século antes. Só mais tarde se descobriu e confirmou que o edifício escondia a Real Fábrica de Panos que Marquês de Pombal mandou construir na Covilhã, no século XVIII.

As estrutruturas arquitectónicas e arqueológicas ali encontradas durante as escavações, mostram aquilo que foi uma grande tinturaria, como é o caso dos poços que se destacam logo na primeira sala do museu e que serviam para tingir os panos, que eram mergulhados num banho quente. Daí as fornalhas com majestosas chaminés embutidas nas paredes.

Mas a real fábrica não tingia apenas tecidos. Na segunda sala encontramos os vestígios do que foi uma tinturaria de meadas de lã, em caldeiras mais pequenas. É também nesta sala que podemos ver muitos dos apetrechos do ciclo da lã, da tosquia ao novelo. Os cestos, que mostram vários tipos de lã da mesma ovelha, mostram também que não é toda igual, depende das partes do corpo do animal de onde é extraída.

No museu sobressaem dois velhos teares onde é possível imaginar a tecedeira, a preparação da teia para ser preenchida com a trama, o fio que a lançadeira estende por entre os fios da urdideira. O processo é complexo, até na linguagem.

Segundo as leis do condicionamento industrial, não podia haver tecelagem feita em casa a não ser que estivesse perfeitamente regulamentada. O tear mecânico não era previlégio de todos. Só a destruição de um conjunto de três ou de quatro manuais, permitiria um alvará que dava direito a adquirir um tear mecânico. Daí que muitos dos antigos teares manuais tenham sido destruídos, no museu ainda existem dois, uma raridade.

No Séc. XIX chega um marco tecnológico à indústria dos lanifícios - a energia hidráulica, e mais uma vez a Covilhã dispõe de condições excepcionais com as ribeiras que a atravessam, a primeira roda chega à Covilhã em 1815.

Já num patamar superior do museu, a tinturaria das dornas mostra os dois tipos de tingimento que ali eram utilizados: por fermentação, para tecidos que podiam ir até aos 50º de temperatura, e por ebulição, onde se atingiam até aos 100º. Era lá que se tingiam sobretudo o azul e o vermelho, as duas cores utilizadas no fardamento do exército.

As cores merecem lugar de destaque nesta sala, feitas à base de produtos naturais de origem vegetal, como o pau brasil ou a granza, e animal como a cochonilha, um insecto que continua a existir no México, e que dava a cor carmim, uma das muitas cores que se vê na paleta utilizada na fábrica.

As ilustrações, ao longo de todo o percurso do museu, permitem imaginar o ambiente da época.

À saída é visível um dos poucos vestígios do tempo do quartel, o pátio que ainda hoje os estudantes da universidade chamam de parada.

A Real Fábrica de Panos foi construída, provavelmente, com as pedras do antigo castelo, de que já não restam vestígios. As mesmas pedras que protegeram a Covilhã, ajudaram-na a alcançar o título de Manchester portuguesa, e foi sobre estas pedras que, já no século XX, ainda a sarar as feridas da crise dos lanifícios, a Covilhã voltou a erguer-se construindo no local o embrião da Universidade da Beira Interior.

No fundo, o museu não conta apenas a história dos lanifícios, o monumento simboliza “o passado heróico e valente” da cidade neve, na voz de Amália, da cidade lã, lembrada a cada dia pelas velhas fábricas que lhe marcam a paisagem e lhe definiram a personalidade.

Paula Brito

18 de maio 2019 - Dia internacional dos museus

Dia de passeio... ao Jardim do Paço em Castelo Branco

 

“Jardim em flor, jardim de impossão, transbordante de imagens mas informe, em ti se dissolveu o mundo enorme, carregado de amor e solidão...”

                                      “Jardim Perdido”, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Com uma beleza, arquitectura e simbologia únicas, o jardim do paço episcopal foi mandado construir por D. João de Mendonça, no início do séc. XVIII, depois da sua chegada de Roma, onde vivera três anos. Desconhece-se o paradeiro do desenho primitivo do jardim, bem como o seu autor, mas suspeita-se que tenha sido um arquitecto italiano, é um dos seus muitos mistérios...

O jardim foi construído depois do palácio episcopal, com o objectivo de dotar a residência dos bispos de um espaço de meditação e D. João de Mendonça consagrou-o a S. João Batista, eremita do deserto, cuja estátua, datada de 1725, encima o jardim do buxo. Já a de Santa Maria Egipcía, que se retirou para o deserto após uma vida de prostituição, patrona das mulheres penitentes, encima o patamar superior do jardim e a porta que dá para o antigo olival e que hoje se encontra fechada. Associando estas duas imagens, D. João de Mendonça propunha que este fosse um espaço de contemplação e “retiro”.

O jardim é povoado de um exército de estátuas, vigilantes de granito, que contam a historia de Portugal, do mundo terreno e espiritual. Uma história incompleta, porque incompleta é também a estatuária, uma simbologia alterada por ter sido alterado o esquema de distribuição das estátuas.

Tal como o mundo à época, o jardim está dividido em quatro partes: o jardim do buxo, a escadaria, a cascata de Moisés e o jardim alagado.

O jardim do buxo é composto por 24 talhões, tantos quantas as horas do dia, e tem implantados cinco lagos, numa alusão às cinco chagas de Cristo. De forma rectangular, o jardim do buxo ostenta, em cada um dos seus vértices, os “novíssimos do homem”: o Paraíso, que encontra no outro extremo o Inferno, e o Anjo do lado oposto da Morte. Ao centro, as virtudes cardinais – justiça, prudência, fortaleza, temperança...

O ciclo do zodíaco completo, de Carneiro a Peixes, as quatro estações do ano e as quatro partes do mundo, que à excepção da Europa têm as legendas trocadas, também fazem parte do jardim do buxo. Não sabemos o que fitaria a Europa na sua versão original, mas actualmente, o que ela fita é a escadaria dos reis de Portugal.

Os quatro elementos estão incompletos, pelo menos na estatuária, onde só está representado o ar (com a legenda de caça) e o fogo. A terra e a água já estão representados... no jardim alagado.

Trata-se de um conjunto de canteiros, com uma labiríntica forma, que parecem emergir do lago. Ao centro sobressai um repuxo de cantaria formado por três golfinhos entrelaçados e encimado por uma coroa.

Outro lago, o das coroas, assim chamado por ter três coroas ao centro, separa a escadaria dos reis, à esquerda, da escadaria dos apóstolos, à direita.

Ao cimo da escadaria real está o conde D. Henrique, com a espada em suas mãos achada, a espada onde começou a nascer Portugal. Além do conde D. Henrique a escadaria inclui outra personagem que não tendo sido rainha, foi coroada de santa: Santa Isabel, rainha de Portugal, representada com as suas rosas no regaço, numa alusão ao milagre, e o bordão de peregrina a Santiago de Compostela. Ao fundo da escadaria encontram-se ainda os três Filipes de Espanha, representados em menor escala, uma “desforra patriótica”, como lhe chamou José Saramago.

Oposto ao polo temporal, representado pela escadaria real, está o polo espiritual, ou a escadaria dos apóstolos, identificados com os símbolos dos seus martírios, alguns com as legendas trocadas, e os quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João).

A escadaria dá acesso ao plano superior e ao quarto elemento do jardim: o tanque, que armazena a água que alimenta o complexo sistema hidráulico do jardim, e que não pode subir mais do que aquele nível porque exerce pressão sobre o sistema, e a cascata de Moisés, segurando as tábuas da lei onde estão inscritos, em latim, dois dos 10 mandamentos: Amarás ao senhor teus Deus e ao teu próximo como a ti mesmo. A referência ao gesto fundador de Moisés encontra-se inscrita na base: “PERCUSSIT PETRAM/ET FLUERUNT A/QUAE”, ou seja, “Feriu a pedra, brotaram águas e as torrentes transbordaram”.

A descida pode ser feita agora pela escadaria de 33 degraus, os anos de Jesus quando foi morto, junto ao paço, a fazer lembrar a entrada primitiva do jardim, que ostenta os bustos dos quatro doutores da igreja ocidental: S. Ambrósio, S. Agostinho, S. Jerónimo e S. Gregório. Ao conjunto junta-se o busto do papa Leão.

Com o objectivo de tornar o jardim público, foi construída uma segunda entrada, em 1936, virada para a rua principal, projectada pelo arquitecto Manuel Tavares dos Santos, com paineis de azulejo a ornamentar muros de suporte, com motivos de paisagem da antiga cidade, ainda hoje inacabados.

É no inicio da escadaria que dava acesso ao jardim, à época, que se encontram as estátuas dos arcanjos e anjos da guarda de Portugal Miguel e Rafael que foram “roubados” dos lugares originais. Foi uma das várias intervenções que o jardim sofreu durante os séculos XIX e XX, que lhe alteraram a leitura e interromperam a continuidade que existia com a mata e o bosque do outro lado da rua, hoje transformado em parque da cidade.

À saída não deixe de reparar no poema de Sophia de Mello Breyner que parece querer legendar o jardim, que se tornou monumento nacional em 1910:

“...cada gesto em ti se quebrou, denso, dum gesto mais profundo em ti contido, pois trazias em ti sempre suspenso, outro jardim possível e perdido.”

 

Paula Brito

11 de maio de 2019

Dia de passeio… à vila de Penamacor

 

Penamacor ergue-se, imponente, numa penha de 550 metros de altitude, com a sua torre visível de todos os pontos cardeais, entre na vila por onde entrar. É esta localização estratégica e fronteiriça que a tornou no passado uma importante cidadela muralhada, e no presente, um museu vivo para quem decide, em dia de passeio, percorrer as suas ruas.

A primeira e obrigatória paragem é no museu municipal, que funciona no antigo quartel militar, com horário de terça a domingo, onde pode apreciar e explorar o vasto espólio de arte sacra, etnografia e arqueologia, de que se destaca uma peça única na Península Ibérica: uma sepultura romana de incineração que foi descoberta numa estação arqueológica do concelho, juntamente com todos os objectos pessoais de adorno.

É no museu, onde funciona o posto de turismo, que deve pedir para visitar a igreja do convento de Sto. António. Se for em grupo, mesmo que pequeno, há visitas guiadas. Se não for em grupo, atreva-se e bata à porta da Santa Casa da Misericórdia, que funciona ali ao lado, e peça para visitar o templo. Aproveite para espreitar o belíssimo claustro quadrangular do convento de Sto. António, fundado pelos frades capuchos de S. Francisco no século XVI.

Conte com o bem receber das gentes da Beira, e sinta-se um privilegiado por poder ver um monumento, que é a jóia da coroa da vila, e que escapa ao roteiro do visitante mais desatento. Quando entrar no templo é impossível não se surpreender, e ofuscar, pelo brilho da sua preciosa talha dourada, cujo ex-líbris é o tecto formado por caixotões, também de talha dourada a iluminar curiosas pinturas. Não deixe de subir ao côro e reparar nas pinturas orientais, provavelmente trazidas pelos frades missionários, que escondem os bancos. Já a sacristia, com um painel constituído por vários quadros que contam a vida de Sto. António, é um hino ao patrono da igreja que só abre ao culto em dias de festa.

A igreja de todos os domingos, ainda fora das muralhas, é a igreja de S. Tiago, cujo adro acolhe, todos os anos, o maior madeiro do país onde arde do Natal até aos Reis. No interior vislumbram-se três naves separadas por amplos arcos sustentados por pilares de granito. O tecto da capela-mor é em abóbada com uma pintura que representa a Santíssima Trindade. Adossada à igreja matriz existe uma torre, a do campanário, conhecida na vila pela “torre de Piza” devido à sua inclinação, que desperta a curiosidade do visitante, mas que ninguém sabe explicar.

A imaginar o que teria causado tamanha inclinação, subimos ao cimo de vila, como chamam os penamacorenses à zona intramuralhas, e recuamos oito séculos na história.

Estamos em plena reconquista da Península Ibérica pelos cristãos após quatro séculos de domínio muçulmano. É neste contexto que o castelo medieval de Penamacor terá sido construído, logo após a tomada dos mouros. Afastado o perigo muçulmano, era preciso defender a fronteira dos vizinhos de Leão e Castela. Esta situação de sentinela, de terra de fronteira, viria a conferir uma importância militar a Penamacor que praticamente se prolongou até ao século XX.

Já na cidadela, perdemo-nos nos becos e escadas de pedra que, mais cedo ou mais tarde, nos levarão até à torre de menagem, a única contrução que resta da antiga alcáçova, a fortaleza medieval que era o último bastião de resistência em caso de ataque do inimigo. Aqui fica mais uma informação útil. Se quiser entrar na torre de menagem para apreciar a exposição do espólio encontrado ao longo das escavações arqueológicas, explorar mais a história da vila, apreciar as suas bandeiras e ver uma réplica da antiga cidadela, então pare no posto de informação que se encontra na Rua de Sta. Maria.

Sta. Maria e S. Pedro eram os nomes das duas freguesias da antiga cidadela, onde viviam, no século XVIII, cerca de 500 pessoas. Hoje ainda viverão umas dezenas de pessoas intramuralhas. Com sorte, encontra um desses residentes e pode ser que lhe conte a estória do salteador de nome Macôr, que vivia numa caverna a que davam o nome de Penha. Está fácil de perceber que esta lenda é uma das várias explicações que existem para o nome Penamacor.

À chegada à torre percebe-se que foram os seus mais de dois metros de largura que a fizeram resistir ao tempo e à guerras. Se tiver a sorte de subir ao topo, compra bilhete para um dos melhores miradouros da vila. É de lá que se vê o poço d´el Rei, que era a principal fonte de abastecimento de água, com os seus 15 metros de diâmetro e 21 de profundidade, até ao meio em cantaria, a partir daí rasgado na rocha. Segundo as crenças populares, no fundo do poço existe um tesouro, ali colocado para evitar as pilhagens do exército francês, no tempo das Invasões.

Viramos costas a Castela e descemos em direcção à Domus Municipalis, antiga casa da câmara, construída sobre o alinhamento da muralha, e que assenta sobre a antiga porta da vila que nos vai levar ao pelourinho, considerado único no distrito de Castelo Branco, por ainda preservar as argolas nos ganchos de ferro forjado.

A descer o cimo de vila, é impossível não reparar na igreja da misericórdia, mandada construir no reinado de D. Manuel, onde sobressai o portal estilo gótico. Por tradição, que ainda se mantem, cabe ao sino da igreja da misericórdia anunciar o falecimento dos naturais da vila.

Não é o toque a dobrar, mas o toque do relógio da torre que anuncia que é hora de partir de Penamacor onde um dia voltaremos, para conhecer o seu mais ilustre filho, Ribeiro Sanches, visitar a precursora igreja de Águas, do arquitecto Nuno Teotónio Pereira, passear pela rua das casas dos balcões, em Bemposta, mergulhar nas águas das praias fluviais de Meimoa, Meimão e Benquerença, ou provar o enchido de Aranhas, em janeiro, quando o fumeiro sair à rua…

Pretextos não faltam para regressar, num destes sábados, à vila dos bonitos solares, das fontes escondidas e das batalhas, umas ganhas, outras perdidas.

Paula Brito

4 de maio de 2019

Dia de passeio... à aldeia mais portuguesa de Portugal

 

Começamos a apreciar Monsanto muito antes de lá chegarmos. A aldeia vê-se a milhas de distância, e até de longe, ou principalmente de longe, percebemos o que levou Fernando Namora a chamar-lhe “Nave de pedra”. As suas pedras graníticas, gigantes penedos ou barrocas, como lhe chamam na aldeia, erguem-se até aos céus sobressaindo na paisagem, a perder de vista, do segundo maior concelho do país: Idanha-a-Nova.

Além de aldeia histórica, Monsanto detém também o título de aldeia mais portuguesa de Portugal, conquistado num concurso nacional, promovido em 1938, que lhe valeu um simbólico galo em prata. É uma réplica deste galo que se encontra ao cimo da torre do relógio, um dos melhores miradouros da aldeia, que proporciona uma vista panorâmica, de 360.º, que vai da Gardunha à Malcata, da Estrela ao Açor.

À chegada à vila, como chamam os monsantinos à zona mais antiga e mais alta da aldeia, encontramos a igreja matriz, construída no Séc. XV e renovada três séculos depois. Mantém o portal românico na fachada e um magnífico altar-mor trabalhado em talha dourada.

Num passeio pelas ruas sinuosas e estreitas de Monsanto, ficamos sem saber se foi a pedra que nasceu nas casas ou se foram as casas que nasceram na pedra. Identificada está a casa onde Fernando Namora exerceu medicina durante os anos em que viveu em Monsanto, na década de 40, do século passado, onde escreveu “As minas de S. Francisco”.

Em muitas casas vislumbram-se pedras salientes junto às janelas, que os populares explicam “serviam para colocar lá os penicos à noite, quando não havia casas de banho”, de manhã eram deitados fora ao som do aviso “Água vai!” Hoje são suportes de bonitos vasos de flores que embelezam ainda mais a aldeia.

Em Monsanto, existem vestígios da presença humana desde o paleolítico, foi um castro lusitano, conquistado pelos romanos, que D. Afonso Henriques doou à ordem dos templários. É aos templários que é atribuída a construção do castelo, que foi fortaleza até ao Séc. XVIII. O imponente castelo medieval de Monsanto, que resistiu a tantas batalhas, no Séc. XIX foi destruído pela explosão acidental do paiol de munições.

À chegada ao castelo, ou ao que resta dele, deparamo-nos com a capela de S. Miguel, rodeada de sepulturas antropomórficas, escavadas nas rochas graníticas. O templo, do Séc. XII, está carregado de simbologia. Junto ao telhado e à volta de toda a capela, sobressaem pedras com diferentes figuras. Na maioria, já não se distinguem as imagens, mas em algumas ainda é visível o símbolo que foi trabalhado na pedra: um barril de água, quatro pães, o símbolo da fertilidade…

Por falar em símbolo da fertilidade, o artesanato mais típico da aldeia são as marafonas, bonecas cosidas sobre uma cruz de pau que não têm olhos, nem ouvidos nem boca. Eram colocadas de baixo da cama dos noivos, como símbolo de fertilidade, na certeza de que não iriam contar nada do que ali se passou na noite de núpcias.

A aldeia guarda ainda uma lenda, que todos os anos é revivida no primeiro fim-de-semana de Maio, com o nome de festa do castelo, da divina santa cruz, a que mais recentemente se juntou a feira medieval.

Há muito, muito tempo, depois de um cerco do inimigo que já durava sete anos, e estando a ficar sem mantimentos, Monsanto decidiu render-se. Mas uma sábia mulher da aldeia, aconselhou-os a enganarem o inimigo e mandarem pela encosta do castelo um vitelo, a quem antes dariam meio alqueire de trigo. Quando o vitelo cai aos pés do inimigo, vendo a abundância daquela terra, decide retirar-se. Hoje é um pote de barro com flores que é atirado pela encosta do castelo.

É o que vai acontecer no próximo fim-de-semana, 4 e 5 de Maio, em Monsanto, juntamente com a feira medieval... Nunca mais é sábado!

Paula Brito

27 de abril de 2019

Dia de passeio... até à aldeia histórica de Castelo Novo

 

Se tiver a sorte de chegar a Castelo Novo num dia em que o sol abriu depois da chuva, verá que a aldeia brilha como ouro, sobressaindo na encosta leste da serra Gardunha. A explicação está nos cristais da mica que abunda no tipo de granito utilizado na construção da histórica aldeia. O brilho que lhe confere este mineral simboliza o tesouro que a Gardunha guarda, a poucas milhas da cidade do Fundão.

Apesar do nome, Castelo Novo é tão antiga como a nacionalidade, aparecendo uma referência em 1208 no testamento de D. Pedro Guterres, o seu primeiro povoador, que doa "a terra a que chamam Castelo Novo" aos templários.

O largo da bica é a porta de entrada da aldeia, o nome fica a dever-se ao chafariz D. João V, onde a água corre indiferente às estações do ano, à luz do sol e da lua. Aliás, a água, nas fontes, chafarizes ou nas caleiras, é um elemento que acompanha sempre o visitante.

Percorrer as ruas de Castelo Novo é deixar-se surpreender, ora pelos solares brasonados, ora pelas típicas casas da Beira com dois pisos. O rés-do-chão servia para albergar os animais que alimentavam e aqueciam as famílias que moravam no primeiro andar. Os balcões e os alpendres, completam o bonito casario.

No centro da aldeia, que foi concelho até 1855, destaca-se o antigo edifício dos paços do concelho, que além de Câmara, foi tribunal e prisão. Em frente, ergue-se o pelourinho que conserva ainda os ferros de sujeição. Era ali que se liam as sentenças e aplicados os castigos mais leves, já que as penas de morte eram executadas à entrada da aldeia, no Cabeço da Forca, onde ainda são visíveis duas pedras sobrepostas, com caveiras e tíbias cruzadas, simbolizado a morte.

Numa subida até à igreja é impossível não reparar nas coloridas portas que transformaram a rua nova na rua do arco-íris. Já na igreja, sobressai a imagem de Nossa Senhora da Serra, padroeira da aldeia e que, reza a lenda, foi ela quem escolheu Castelo Novo, onde aparecia sempre que levada para Alcongosta, para morar e proteger.

É obrigatória a subida ao Castelo onde é possível ver de perto as duas torres que se destacam no conjunto da aldeia: a torre de menagem, que data da construção do castelo, e a torre sineira, do séc. XIV.

À saída, não deixe de passar pela lagariça escavada num enorme bloco de granito, onde eram pisadas as uvas, com os pés, e por onde escorria o mosto que transformava o sumo da uva em vinho.

Brindemos a Castelo Novo com este milagre da natureza, e… bom passeio.

Paula Brito

20 de abril de 2019

Dia de passeio... a Oleiros para saborear o cabrito estonado

 

Este e no próximo fim de semana, em Oleiros, realiza-se o festival do cabrito estonado. Um prato típico daquele concelho do pinhal interior, no distrito de Castelo Branco, cuja receita original foi inventada pela Ti Prazeres, como era conhecida em Oleiros esta cozinheira de mão cheia. Um dia, com receio que o leitão não fosse suficiente para o jantar dos patrões, decidiu matar um cabrito e prepará-lo como se de um leitão se tratasse.

A Ti Prazeres estava longe de imaginar que, passados mais de 60 anos, a sua experiência daria origem a um prato que já teve honras de figurar nos selos dos CTT, na coleção da cozinha tradicional portuguesa, e que é hoje um ex-libris do concelho de Oleiros.

Maria Afonso Silva tem 80 anos e foi a primeira a levar a receita do cabrito estonado para o restaurante onde a Ti Prazeres chegou a trabalhar. Inicialmente assava os cabritos no forno da padaria: “O primeiro cabrito que assei foi para a inauguração de uma fábrica de resina, na altura era só para dias de festa e banquetes.”

Depois de saber a receita, que passou de cozinheira em cozinheira em Oleiros, com segredos que nem sempre revelam, percebe-se porque motivo, ainda hoje, o cabrito estonado é feito apenas com dia marcado. É que o prato demora pelo menos dois dias a preparar!

O segredo começa nos pastos de Oleiros e termina, no forno a lenha que tem que ser de eucalipto, “para não ficar a cheirar a resina”. A paciência em estoná-lo, isto é, retirar-lhe o pêlo sem danificar a pele, as 24 horas de espera enquanto está a marinar do tempero, a travessa de barro com uma cama de paus de loureiro, completam a lista de requesitos para ser um genuíno cabrito estonado de Oleiros.

Este prato fazia parte das ementas dos casamentos e dos batizados, das festas de aldeia e das celebrações do calendário litúrgico, como a Páscoa. É por isso que todos os anos, por altura da Páscoa, se realiza o festival que celebra o prato que tem levado longe o nome de Oleiros, e a Oleiros gente de muito longe.

Paula Brito

13 de abril de 2019