Fogo que arde…

 

Temido no verão, desejado no inverno. É assim o fogo, não o que arde sem se ver, que esse não escolhe estações do ano, mas o que se vê e se sente.

Há algo de vida numa lareira a arder. Queima a solidão, potencia a companhia, ilumina a noite, aquece o dia, dá calor à vida.

É difícil explicar o poder de uma chama acesa, mas vou arriscar e, à minha maneira, deitar lenha para a fogueira.

Uma lareira acesa desperta os cinco sentidos.

O fogo deixa o olhar a arder, deve ser porque tem cor de prazer!

Só o som do crepitar já afasta o frio, mas provoca no ouvido um arrepio.

O calor que o fogo emana deixa a pele em chama.

E a que cheira uma lareira? A eucalipto, a pinho, a oliveira…

E o fogo, que sabor tem? Sabe a fumeiro, a castanha assada, a pão caseiro.

Tanto sentir numa só chama! Que arde como se fosse uma dança, ora lenta, ora apressada, indiferente à trovoada, ao frio da rua, à noite de lua, ao cansaço do dia.

Há algo de vida numa lareira a arder. Deve ser porque também ela precisa de ar para sobreviver!

Odiado no verão, adorado no inverno. É assim o fogo, não o que não se pode controlar, de nenhuma maneira, mas o que fica circunscrito a uma lareira.

 

Paula Brito

16 de novembro de 2019

Foto: Miguel Proença

Um dia de chuva…

 

Já Fernando Pessoa dizia, que um dia de chuva, tão bonito seria, como um dia de sol. À poesia tudo fica bem! E à vida, também?

Na vida, a beleza desta poesia, não está no tempo do dia, mas sim na escolha da companhia que, mesmo que a chuva teime em cair, nos faça sorrir.

Há pessoas que têm essa capacidade, de com um simples encontro, um bom dia e pronto, um café com uma risada, um abraço e mais nada, nos deixarem a pensar que a chuva daquele dia veio só com o propósito de nos encher de alegria!

Mas a chuva, não cai bem no dia só para a poesia, também é boa para a fotografia. Limpa a poeira do ar, deixa tudo a brilhar, dá nitidez ao olhar, um deleite para esta arte, de fazer numa só imagem caber tanta mensagem!

Até o sol gosta de um dia de chuva. E às vezes, decide aparecer, atrevido, deixando o dia ainda mais colorido. É que mais bonito que um dia de sol ou de chuva, é um dia em que os dois, mesmo de oposta personalidade, decidem encontrar-se só porque têm vontade! É quando surge o arco-íris, de todas as cores, de tantos amores!

A minha avó dizia, que uma velha ali um tesouro escondia. Quem o conseguisse encontrar, além do tesouro, podia uma cor levar: laranja, violeta, vermelha… cá para mim é daí que vem a expressão “coisas do arco-da-velha!”

O arco-íris, sendo um fenómeno natural, contraria outro ditado popular que diz que, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal! Mas voltemos ao dia de chuva, que já Pessoa dizia, que tão bonito seria, como um qualquer dia de sol. É que a beleza do dia não está no tempo que faz, mas nas emoções que traz.

 

Paula Brito

9 de novembro 2019

Foto: Miguel Poença

Ai Portugal, Portugal!

 

Os espanhóis olham para Portugal como a mais autónoma das suas regiões. E nem falam alto sobre o assunto, já que “los portugueses” são capazes de lutar contra a própria mãe só para defenderem o seu território!

Os italianos olham para Portugal como Júlio César, o imperador romano que, já sem paciência para a resistência que este povo oferecia à conquista romana, desabafou: “há nos confins da Ibéria um povo que não se governa nem de deixa governar!”.

Os franceses nem olham para Portugal, olham para eles e andam, desde 2016, a tentar perceber como é que o país das Marias lhes roubou o campeonato europeu de futebol, ainda por cima, “chez nous, incroyable!”.

Já os alemães olham para Portugal com interesse, ou melhor, por interesse. Um país pequeno demais para contar nas contas da Europa, mas consensual o suficiente para ocupar lugares de chefia, evitando guerras de poder entre os grandes. Ainda que eu acho que Merkel tem um fraquinho pelos governantes portugueses, “Ah, diese latinos!”

Os ingleses olham para Portugal como uma colónia de férias, e quando regressam ao Reino reportam no diário: “Portugal, um país com um clima fantástico, com praias e paisagens maravilhosas, onde se come bem, se bebe melhor e onde todos os hotéis parecem ter cinco estrelas! A língua oficial é o inglês, mas depois, entre eles, falam um dialeto do qual aprendi a dizer “obrigado” que significa thank you!”

Já Portugal, não olha para o seu interior, olha para o exterior com olhos azuis de céu e de mar, como se o mundo quisesse abarcar.

Fernando Pessoa tem uma frase que resumiria tudo. “Uns governam o mundo, outros são o mundo.”

 

Paula Brito

2 de novembro 2019

Foto: Miguel Proença

Imperfeições, quem as não tem?

 

“O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito.”

Bernardo Soares, in “Livro do desassossego”

 

O que é ser imperfeito? É não ter determinado jeito? É ter mau acordar, mania de gritar, um vício não largar? Ter mau feitio? Um coração frio? Não gostar de conversar, preferir remoer ou falar sem saber? Chegar tarde? Ser cobarde? Ser teimoso? Levar a vida no gozo?

E as nossas imperfeições, afastam ou aproximam corações? Ninguém se aproxima, à primeira vista, de imperfeições, por isso, começamos sempre por conhecer tudo o que é virtude, só depois a personalidade na sua plenitude, com os seus erros e defeitos, até descobrirmos seres humanizados, cheios de pecados…

Camões que era Camões, também tinha as suas imperfeições, como a obsessiva mania de encontrar uma definição para o amor, sem colocar na equação um lugar para a imperfeição!

É que, se só o ser humano ama, e o humano é imperfeito, então, não se pode amar ninguém sem conhecermos as suas imperfeições!

A igreja deveria renovar os votos: “prometo amar-te, na saúde e na doença, com virtudes e com defeitos, até que a imperfeição, ou a morte, nos separe!”

E já agora, lidamos melhor com as imperfeições emocionais ou físicas?

Sou gorda, tenho celulite, sou baixinha, não quero ser esquerdina, nem usar aparelho quando me olhar ao espelho! Tenho problemas de locomoção, e eu de visão…

E também aqui, Camões é um bom exemplo. Na sua imperfeição física, conseguiu escrever uma obra-prima perfeita, porque, provavelmente, com um olho observava o mundo e, com o outro, o seu interior.

E as pessoas perfeitas de visão conseguirão olhar para dentro e observar as suas imperfeições, ou só têm olhos para as imperfeições alheias?

Hábil na crítica, lesto a encontrar defeitos nos outros e incapaz de reconhecer os seus, é o ser humano na sua máxima imperfeição.

Quem atira a primeira pedra a esta minha imperfeição de escrever sempre com o coração na mão?

 

Paula Brito

26 de outubro de 2019

Foto: Miguel Proença

Qual foi a maior loucura que já fez por amor?

 

Se não consegue responder, então comece a pensar naquela que fará no futuro. Ninguém deveria morrer sem primeiro fazer uma dessas loucuras, ninguém devia partir, sem sentir que é o motivo da "loucura" de alguém.

Um dia 14 de fevereiro, de um ano qualquer, fui para a rua fazer essa pergunta. A data era propícia a um vox pop do género, e a questão parecia-me interessante, até ouvir as respostas, ou melhor, a falta delas…

Prefiro pensar que foi por pudor que não quiseram falar!

E não precisava ser uma serenata! Ainda que a ideia me agrade e fique sempre a imaginar, se não seria para a sua poesia musicar na minha janela, que um poeta, de 80 anos, me pediu a morada um dia, depois de o entrevistar. Nunca saberei, porque não lha dei!

Mas de todas as não respostas que obtive na rua, naquele dia dos namorados, guardo na memória a da mulher, dos seus 70 anos, que recordou que o marido, quando com ela queria namorar, andava 14 quilómetros a pé para lá chegar, e outros tantos para voltar!

Um namoro que não era apenas de primavera, e portanto, o caminho era percorrido tanto no estio como no frio.

Hoje soará a loucura por amor, tal como a serenata, mas na altura seria apenas dificuldade nos transportes, e no caso da serenata, falta de um smartphone, para enviar uma música através do chrome.

A verdade é que hoje está tudo mais facilitado, mas e depois? Já ninguém arrisca uma loucura a dois!

Para quê surpreender quem se gosta com um beijo de entrar em estado de choque, se há tantos emojis para enviar beijos à distância de um toque? O problema é que são todos iguais, todos têm a mesma cor e nem sequer têm sabor ou aceleram o coração, estes soldadinhos do amor na linguagem de programação!

Hoje, já não se marcam encontros com bilhetes escondidos em ramos de flores, um sms fará tudo, sem pudores!

Por isso, se ela lhe pedir a lua, não lhe envie a foto pelo WhatsApp, leve-a a jantar a um inusitado lugar, se a noite for de luar!

E se ela lhe pedir o mar? Para quê ficar a pensar… basta no Google procurar!

De facto, hoje está tudo mais facilitado... mas, e o que é feito do inesperado!

 

Paula Brito

19 de Outubro de 2019

Foto: "Jornal da região"

Um brinde à amizade!

 

Amigos são aqueles que entram na nossa vida, sem pedir licença, se servem da nossa despensa, mesmo sem a nossa presença. São aqueles com quem não temos que nos preocupar, cedo ou tarde vão perdoar, uma lágrima limpar, um abraço apertar.

Gosto da palavra amizade.

De trato fácil, sem complexidade e de elevada rima, a amizade anda de mão dada com a liberdade. Não é preciso papel passado, nem sangue herdado, é livre na escolha, como pássaro desenjaulado.

Amizade também rima com verdade. Para quê mentir a um amigo, que não representa qualquer perigo? Só se a nós quisermos mentir, mas aí, o amigo verdadeiro saberá que estamos a fingir.

Amizade rima ainda com integridade, ainda que sejam os amigos mais chegados que conheçam os nossos pecados. Mas são amigos, não padres obcecados!

Amizade é também cumplicidade. Às vezes nem é preciso falar, basta uma troca de olhar. Um problema partilhar, uma alegria festejar, um silêncio respeitar…

Amizade rima, por fim, com eternidade. E daí a minha esperança, de quando nos separarmos nesta vida em qualquer ponto, nos voltarmos a cruzar, numa espécie de reencontro.

Amizade com noitada já não rima, mas à vida sabe bem!

Vamos até lá casa, fazer uma jantarada, discutir filosofia entre uma e outra garfada, abrir uma garrafa gelada, jogar uma cartada e gargalhar das peripécias da vida até de madrugada?

 

Paula Brito

12 de outubro de 2019

Foto: Miguel Proença

Há dias assim…

 

Que não se molhe o papel, nem faça curto-circuito o teclado, que hoje quer ser martelado, não tocado com alegria como quem toca uma sinfonia.

Hoje quer descrever uma tempestade.

Primeiro chega o relâmpago, sem se fazer anunciar, a queimar a vista, a rasgar o olhar, depois vem o trovão, que ruge ao luar até a carne desagarrar!

É só um trovão, no meio da escuridão, devastador, carregado de dor, daquelas de com ele começar, em dueto, a gritar.

Depois chega a chuva, furiosamente intensa, como a querer tudo levar, sem para trás olhar, regando prados, lavando pecados…

De repente parou de chover, do corpo doer, mas a noite ainda era uma criança e à madrugada faltava esperança.

Até o vento começar a silvar, e as nuvens embalar.

Só o cheiro da terra molhada fez sentido ao despertar. Um odor a terra fértil, que a chuva deixou ficar, e que um destes dias, quando o sol voltar a brilhar, estará pronta a semear.

Paula Brito

5 de outubro de 2019

“Ergo Sum!”*

 

Sempre me fez confusão este ritual, que existe em qualquer tribunal, de toda a gente se levantar quando entra o juíz na sala de audiências. E só se devem sentar quando ele ordenar! Confesso, já várias vezes estive tentada a não o fazer, só para ver se o juíz me mandava prender!

Mas como desconheço o código penal e civil, não me atrevi. Se calhar alguém inventou uma lei que penaliza quem perante um juíz não se levanta, se calhar antigamente até lhe cortavam a garganta!

Há quem defenda, que é um gesto de respeito pela justiça que o juíz ali representa. A mim não me convence, porque eu respeito tanto a justiça como a saúde, a ação social como o ensino… E imagino o rebuliço que seria, se um dia, um professor exigisse das crianças que se erguessem à sua chegada!

Esta semana fui a um quase julgamento. Quase, porque tratando-se da justiça, nunca sabemos se vai ou não acontecer, se alguém apresentou um requerimento, se os prazos foram respeitados, se foram todos convocados…

E de facto, não se realizou porque um advogado faltou. A lei assim o prevê, não há julgamento, fica adiado para outro momento. E foram todos dispensados: testemunhas, advogados, juízes, arguido e procuradora do Ministério Público foram todos dispensados…pela justiça.

E todos se levantaram, mais uma vez a veneraram, e seguiram a sua vida, foi só mais um dia no palácio da justiça!

No dia em que fui entrevistada pela turma do meu filho, uma das crianças perguntou-me qual tinha sido a pessoa mais importante que eu tinha entrevistado na vida. Não soube responder.

Todas as pessoas são importantes. E dei o exemplo da entrevista que fiz ao senhor que todas as madrugadas recolhe o lixo da minha cidade, propondo-lhes o exercício de imaginarem o que aconteceria se ele faltasse, ainda que fosse por um dia… toda a gente repararia.

Sempre que vejo o varredor de lixo da minha rua, brindo-o com um bom dia e um sorriso, é a minha forma de me levantar perante a injustiça.

*”Sou eu!” - Transcrição em latim que se lê na legenda da foto, no painel da sala do tribunal.

 

Paula Brito

28 de Setembro de 2019

Foto: Miguel Proença

Vamos linguajar?

 

Esta semana, o reitor da Universidade da Beira Interior deu as boas vindas aos novos alunos, com uma surpreendente e bonita declaração de amor. António Fidalgo disse, em espanhol, “te quiero”…e que bem que soa na língua de Cervantes!

Há palavras que soam melhor dependendo das línguas em que são proferidas e esta, ah! esta, é sem dúvida a forma mais carinhosa de dizer a alguém o quanto se gosta, como se fosse dito a sussurrar, mesmo sendo suficientemente alto para ser ouvido por um auditório inteiro - Te quiero!

É certo que os sentimentos são universais, mas as culturas são diferentes e a língua traduz essas diferenças, como se fosse um traço de personalidade, uma assinatura.

A língua francesa, por exemplo, é conhecida por ser a mais romântica das línguas. Eu acho que, além disso, é uma língua delicada, parece de porcelana, é-me até difícil imaginar alguém dizer palavrões em francês, mas desfolhar um malmequer em francês… je t´aime, un peau, beaucoup, passionnément, à la folie, pas du tout…

É como o céu, apesar de ter a mesma cor em todo o planeta, é bleu em francês, blue em inglês, blau em alemão e… azul em português, a sonoridade do azul é capaz de acordar os anjos só para tocarem harpa ao som da cor celestial.

Já em inglês tudo fica bem. Diga o que disser, se for em inglês, ninguém leva a mal. Parece uma língua com estatuto de imunidade, até canções com palavrões se tornam canções de amor!

Se for inglês de Inglaterra, tem a vantagem de, além de tudo, ser snob. Tudo lhe fica… ainda melhor! Se for em inglês da América, tudo lhe é permitido, até comer metade das palavras, como se também fossem fast food (agora imaginem que eu tinha escrito comida gorda!).

É como o português de Portugal e o português do Brasil, o primeiro é mais austero, o segundo mais leve. O dia em que expliquei ao meu filho que no Brasil não se falava brasileiro mas sim português do Brasil, ele respondeu com a sua sábia inocência, “já sei porquê, é para tudo rimar”.

Já os alemães não têm na fonética o nosso som de “j”, para eles, o jota lê-se “io”, basta ler o nome do seu mais famoso compositor Johann Sebastian Bach. Por outro lado, os alemães não gostam de inventar palavras, uma borracha é uma “bleistiffspitzer”, que traduzido à letra significa, apaga lápis. Práticos!

Aos italianos, não é preciso ouvi-los, basta vê-los, parece que falam com as mãos, com o corpo. A língua italiana é expressiva, está sempre com pressa, como se uma só vida não lhe bastasse para dizer tudo o que tem para dizer, para sentir, para viver!

Do húngaro, nem vamos falar, dizem que é a única língua que o diabo respeita, tal é a sonoridade e a complexidade da sua compreensão!

Já o russo, soa rude. Parece que falam com todas as letras a negrito, como se a língua fosse uma espécie de vodka para a mente. Um dia ainda vou ler uma poesia em russo, pode ser que mude de opinião.

Para já, fica o desafio de ler este apontamento em voz alta.

É que a língua, em voz alta, desperta outros sentidos!

 

Paula Brito

21 de setembro 2019

Gosto de me perder…

 

Gosto de me perder no meio da multidão. Observar a vida a caminhar. Ora lenta na sua solidão, ora apressada, com outros pela mão.

Gosto de imaginar o caminho que cada um está a trilhar. Será que aquela mulher está com pressa para ir abraçar o marido, ou com medo de ser despedida devido ao tempo perdido?

E aquele casal, porque se passeia como se não houvesse mundo? Terá encontrado uma calçada ladrilhada com nuvens de pano de fundo?

E o homem apressado de sapato de bico calçado? Irá para o trabalho naquele fato anafado, ou à florista, para o auxiliar numa conquista?

Gosto de me perder no meio do trânsito, ir por uma rua desconhecida, chegar a becos sem saída, fazer marcha atrás no dia, pisar um risco contínuo, porque a vida não é em linha reta, e é nas curvas que se endireita.

Gosto de me perder no tempo. Acordar com a lua, lanchar à hora do jantar, deitar-me com o sol ainda a brilhar, trocar as voltas ao dia, fazer da noite alegria.

Gosto de me perder na cidade, contar os degraus de uma escada como se fosse a tabuada, brincar de equilibrista como se o lancil do passeio fosse uma corda de trapezista. Contar o número de andares, ver se todas as janelas têm pares. Observar as pombas quando dão beijos de amor, atravessar a passadeira numa só cor.

Gosto de me perder nas memórias, imaginar outro fim para as estórias, uma branca de neve verde-esmeralda, uma bela adormecida hiperativa, um príncipe desencantado, cheio de defeitos, humanizado…

O problema de quem se perde por querer é que às vezes se pode surpreender, chegar e não encontrar a saída, voltar ao ponto de partida, descobrir novos caminhos, chegar a outros destinos...

Gosto de me perder... o que é que eu hei de fazer?

 

Paula Brito

14 de setembro 2019

Foto: Jornal Reconquista

Legalmente roubada!

 

Era um lindo dia de sol, e como todos os dias, sejam de sol ou de chuva, fui ver as novidades na caixa do correio. Não o virtual, o velhinho correio por onde já só se passeiam indesejadas cartas de contas para pagar! A carta fez-me disparar o ritmo cardíaco, não por ser uma carta de amor, mas por ser uma ridícula carta com o remetente: “Autoridade Tributária e aduaneira”.

As novidades não eram boas, era uma notificação para apresentar defesa ou pagamento de uma coima de 81,75 euros. Tinha sido aberto um processo na Justiça Tributária, onde descobri que era arguida depois de identificar o meu número de contribuinte.

Fui às Finanças locais tentar perceber onde tinha falhado a minha contribuição, e lá descobri que além daquele valor, (que era só uma coima!), tinha que pagar mais 20 euros de uma portagem que custava dois euros e que, feitas as contas, iria custar-me 100.

Perguntei por que razão eram as Finanças a cobrar um montante que eu devia à Ascendi, SA, que era o nome da identificação da proveniência do processo, e perguntei-me se uma qualquer empresa podia passar o contencioso para as Finanças para se ver livre das cobranças difíceis…

Perguntei ainda como é que eu sabia que não tinha outras portagens em dívida, e aí percebi que havia uma fila para a indignação. A senhora, com o sorriso comprometido de quem me quer dar razão e não pode, qual ladrão autorizado que fica ao portão e se faz anunciar, apontou para um suporte com fotocópias de todos os contactos de empresas concessionárias de autoestradas que já foram Sem Custos para o Utilizado (SCUTS), os chefes da “quadrilha”, portanto!

O sistema de cobrança duvidoso de portagens nas ex-SCUTS, coloca a nu as duvidosas virtudes das Parcerias Público Privadas em que o Estado paga anualmente, em rendas às empresas concessionárias, 700 milhões de euros (dados do ano 2011). Uma obscenidade que cresce no frente a frente das renegociações anuais que resultaram, no mesmo ano, no pagamento de mais 800 milhões de euros. Isto sem contabilizar o que as empresas pouparam no pagamento a advogados para fazerem cobranças difíceis de dois euros!

Tratando-se de uma parceria win-lost, em que o perdedor é sempre o público, por que prato de lentilhas se terá vendido o Estado a estes parceiros? Não é uma questão de prato, mas de tacho, ou de cadeira, basta ver onde se sentaram os negociadores das PPP em nome do Estado, depois de saírem do Governo.

E agora pouco me importa quem foi ou deixou de ser. Quero saber quem tem a coragem de acabar com esta consentida pilhagem.

Vencida mas não convencida, na hora do pagamento, vejo escrito na carta que a portagem em dívida foi pela passagem no IP2. Bons salteadores, mas fracos falsificadores, já que nem se deram ao trabalho de alterar para A23.

Legal e descaradamente roubada!

 

Paula Brito

7 de Setembro 2019

Zéfiro, deus romano do vento. In "O nascimento de Venus" de Botticelli

Apontamento, semeado ao vento

 

Às vezes dou por mim a pensar, para que serve o ar? Para além do pormenor de nos deixar respirar! Nunca damos pelo ar, mas é ele que nos impele a voar, que nos faz rir e chorar, que nos alimenta, que nos orienta e até nos atormenta.

Mas afinal quantas personalidades tem o ar? Tantas quantas as que lhe quisermos dar, basta virar este apontamento de pernas para o ar e nele, as palavras apanhar. Vamos tentar?

O ar tem o seu ritmo.

Se vem quieto e silencioso, é um mar de tranquilidade, ninguém dá por ele, só o poeta, sempre atento à quietude das searas e aos campos de melancolia.

Se for uma brisa, parece que beija, parece que abraça, e ninguém fica indiferente, quando, sorrateiro, vem dar o ar da sua graça.

Se for forte, faz-se anunciar. Deixa cabelos ao ar, as árvores a silvar, arrasta as ondas no mar…

Se for devastador, ganha forma de furacão, e até na alegoria, deixa uma grande confusão.

O ar também tem dias…

Dias em que dá ares de importante, dias em que tem ar de doente, dias de ar inteligente, dias de ar de idiota provocando chacota, dias em que se arma em atrevido e levanta um vestido!

O ar também gosta de brincar, empurrar um barco de papel, fazer voar um papagaio, soltar bolas de sabão, fazer rodopiar um pião, e aquela brincadeira da cadeira, “quem foi ao ar perdeu o lugar”…

Mas falemos de coisas sérias que o ar também alimenta, põe o pão na mesa com os seus moinhos de vento, hoje modernas catedrais à espera de vendavais. E eu, que sou cabeça no ar, dou por mim a imaginar como reagiria D. Quixote àquelas torres descomunais…

O ar também tem família.

O pai chama-se Zéfiro, por ser o Deus do vento, a mãe chama-se Rosa, porque é quem lhe orienta o movimento. Vento do norte, frio e violento, vento do sul vem quente, se de oeste é primaveril, mas se for de leste sopra a mil.

Mas o ar não tem lugar, reside onde mora a vida. Ou nunca ouviram dizer, que dele tanto precisamos como o ar que respiramos!

Tanta coisa por causa do ar, eu própria já não aguento, ainda bem que está a acabar e que as palavras, leva-as o vento…

 

Paula Brito

31 de Agosto 2019

Pormenor da pintura "O semeador" de Vincent Van Gogh - um semeador de sóis...

O sol quando nasce é para todos!

 

Mesmo aqueles que não o veem, porque não podem ou porque o não querem ver, sentem-no na pele da mesma maneira, e não vale a pena tapar o sol com a peneira.

O sol dança ao ritmo das estações. Se for de inverno, tarde sai, cedo vai… se for de verão, é preciso a lua apelar-lhe ao coração.

Tudo gira em seu redor: a vida, a poesia, o amor... tanto calor!

Por nascer a oriente, Japão dedicou-lhe o nome. “Origem do sol”, é o que significam os caracteres do país do sol nascente, que o ergue na bandeira, impunemente!

Sol também é domingo. O dia da semana que a Antiguidade consagrou ao astro rei, porquê? Não sei! Só sei que o domingo é para ser espreguiçado e que te quero a meu lado…

Se domingo é dia de sol, segunda é dia de lua, terça é do planeta Marte e na quarta já queria beijar-te… mas o dia pertence a Mercúrio! Júpiter governa à quinta e Vénus guardou-se para sexta, pode ser o nosso dia, talvez… antes que venha Saturno e seja sábado outra vez!

Já não sei que dia é hoje, mas isso é o que menos importa, olho o sol e abro a porta.

Os seus raios entram em casa como ladrões, com a mesma desfaçatez com que aquecem corações. Desafiam a solidão, clareiam a escuridão, unem povos, ligam mares, queimam saudades…

Dizem que o sol da manhã não dura para sempre, mas nasce outro, felizmente!

Paula Brito

24 de agosto de 2019

Ponto final. Parágrafo!...

Os sinais de pontuação são uma espécie de sinais de trânsito da língua portuguesa. Evitam atropelamentos e permitem que a escrita flua nas curvas dos parágrafos, acelere nas frases retas e se passeie pelas sinuosas estrofes de poesia. Para não nos perdermos, na escrita e na leitura, basta seguir os sinais…de pontuação.

Eu adoro reticências…estimulam a imaginação, deixam-nos a pensar o que virá depois, também podem querer dizer que o autor está hesitante, ou quer deixar o leitor expectante. Três pontinhos apenas que podem ser tantas palavras, tantos pensamentos…

E o ponto de interrogação? Leva-nos a alguma conclusão? Há quem lhe chame sinal de dúvida, eu chamo-lhe sinal de clarividência, procura a verdade e a transparência. Se lhe suceder um travessão, obtém a resposta: sim ou não. Mas também pode querer só interrogar, sem uma resposta esperar, deixar-nos a pensar…

A vírgula, ambígua, parece a quadrilheira vizinha, tem sempre algo a acrescentar, como a testemunha ocular. Mas também separa águas, com o seu jeito ondulado, e ideias, para ninguém ficar baralhado.

E se um ponto se lhe encima? Fica tudo mais esclarecedor, mas quantos pontos e vírgulas são necessários para explicar o que é o amor?

*“O amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;” (…) lá estão elas, as reticências, aqui para informar que este poema pode continuar.

Já as aspas foram criadas para permitir citações ou outras interpretações, como as idiomáticas expressões.

Ah! Falta o ponto de exclamação, surge sempre que há surpresa, ironia, admiração! Dá ênfase às palavras! Obriga-nos a mudar de expressão, a acelerar a batida do coração, mas como? É só um traço na vertical e um ponto! Vamos dar-lhe um desconto.

Ponto final. Acabou. Um ponto assim o ditou. Não é vírgula nem coisa e tal, apenas um ponto final.

*Já me esquecia do asterisco, que serve para isto: Identificar o poema que não precisa de apresentações, “Amor é fogo que arde sem se ver” de Luís Vaz de Camões.

Paula Brito

17 de agosto de 2019

A banda sonora da vida

 

Já alguma vez pensou na importância da música nas nossas vidas? Mesmo para quem não tenha dotes musicais, como eu, a música acompanha-nos como se de uma banda sonora se tratasse. Há momentos em que nem damos por dela, há outros em que a música parece ter sido escrita para nós, para ilustrar aquele momento das nossas vidas.

Se tivesse que escolher uma música para servir de fundo à minha infância, escolheria o assobio com que começava e terminava a série juvenil dos anos 70, “Verão Azul”. Aquele melodioso e alegre assobio ilustra bem uma infância passada descalça numa aldeia, entre a natureza e os amigos.

Quando me mudei para a cidade senti a falta dos sons das rãs, dos grilos, dos cucos, do sino da aldeia… A banda sonora da vida tinha agora outro ritmo. O ritmo do toque de entrada e de saída na escola, hora a hora, o som dos carros que à noite soavam a aviões, o ladrar do cão do vizinho, preso há tempo demais para estar em silêncio, a sirene da empresa em frente, que tocava todos os dias como se a hora do almoço fosse para ir apagar um fogo…

E podíamos ir caminhando, ou dançando, pela vida, à qual não adianta agora deitar contas, já que “a ternura dos quarenta não tem conta nem medida”.

A música também faz parte da história, e às vezes, faz história. “E depois do adeus” de Paulo de Carvalho, ficará para sempre na nossa história por ter sido a música escolhida, como primeira senha, na noite de 24 de abril de 1974. Uma música de amor marcou o início de uma revolução que se fez sem sangue e que ficou conhecida por nome de flor!

Se a música diz muito de um povo, o que dirá o fado de nós? Povo triste? Saudoso? Melancólico? Apaixonado? Sentimentalista? Mas a música, como o povo, também evolui e hoje o fado ganhou novos adjetivos, como alegre, ritmado, crítico e até engraçado.

O exemplo mais paradigmático que conheço da evolução da música, é o sucesso dos Xutos e Pontapés “A minha casinha”. O Tim contou numa entrevista, que cantou e tocou a música de improviso, pela primeira vez, num concerto onde lhes faltou o repertório, conhecia a música cantada pela sua avó. A avó do Tim ouvia a música na sua infância, nos anos 40 do século XX, na voz de Milú, a cantora e atriz portuguesa que cantava “A minha casinha” com voz de ópera e que os Xutos e Pontapés adaptaram a voz de rock.

Depois há músicas que despertam emoções, reavivam memórias e que associamos de imediato a uma pessoa, a um momento, a um sentimento, a uma… publicidade. É que se há marcas que se confundem com o produto, como Black & Deker, há músicas que só de ouvir lembra um anúncio publicitário. É o que me acontece sempre que oiço a música “I can see clearly now”, apetece-me um café, ou como dizia a publicidade da Nescafé, um amanhecer diferente.

Um filme de suspense sem banda sonora não tem suspense, um filme de terror sem banda sonora vira uma comédia de mau gosto, um romance sem banda sonora não rouba lágrimas a ninguém, agora imagine uma vida sem banda sonora… não tinha graça nenhuma.

Por isso escolhi uma banda sonora para todos – “You can do magic” - porque todos podemos fazer magia, com uma caneta, uma enxada, um teclado, um volante, uma agulha, um estetoscópio, um apito, um pano, uma esfregona, um martelo, um pincel, uma mangueira, um microfone, um tacho, um compasso, um pensamento, um sorriso… basta que cada um encontre a sua varinha mágica.

 

Paula Brito

10 de agosto de 2019

Uma aventura a cuidar de malandrinhos

 

Esta é a história de uma família numerosa que, na década de 90 do século passado, me “roubou” muitas noites da juventude. Este bonito assalto foi feito por quatro malandrinhos que eu cuidava todas as noites num trabalho temporário a tratar de crianças, ou em estrangeirismo, num part-time de baby sitter.

O Francisco, com ar de reguila, cabelo liso e comprido demais para menino, era o mais velho, tinha… 5 anos. Um dia ensinei-lhe um teatro do qual ele reteve apenas uma parte, que cantava a toda a hora pela casa e que quase me custou o emprego. O meu Francisco fingia que tinha uma mochila às costas, fazia um ar de zangado, e gritava aos quatro ventos, como se a deixa tivesse sido escrita para ele: “A senhora professora diz que vai-nos ensinar, essas contas de somar das que têm e vai um, pego já na minha sacola vou já dizer aos meus pais, que me tirem desta escola que eu já não aguento mais!”

A segunda malandrinha era a Margarida, de feitio difícil, a contrastar com a delicadeza do nome. Uma teimosia da Margarida custava-nos uma noite de brincadeiras, mas quando ela abria aquele sorriso derretia todas as arrelias à sua volta. Uma adorável pestinha, portanto.

A Joaninha tinha apenas dois anos e era a prova viva de que a minha teoria do “síndrome do terceiro filho” está certa. O terceiro filho cresce feliz, sem pressões ou preocupações, livre, ganha autonomia muito cedo e a maior parte das vezes ninguém dá por ele. Sei do que falo porque sou a terceira filha! A Joaninha também era assim, voava, voava, feliz, sem ninguém dar por ela.

O quarto malandrinho chamava-se José Maria, ou Zé-Maria para os amigos, e tinha apenas… 3 meses. Além de beber o biberão sofregamente e dormir ao som dos gritos e das gargalhadas dos irmãos como se fosse o mais melodioso som do universo, o Zé Maria adorava o banho. Não o dele, mas o dos irmãos.

Este foi um dos muitos obstáculos que tive que vencer: a hora do banho, de que ninguém gostava, e depois dar banho a um enquanto os outros fugiam, secar o que estava a sair da banheira com frio e ir apanhar o próximo… um problema que me obrigou a traçar um plano.

Ao terceiro dia, enchi a banheira de água e disse que estava na hora de irem para a piscina onde podiam brincar durante, pelo menos, meia hora. O Zé Maria ficava na cadeirinha a olhar para os irmãos, extasiado, às vezes eufórico quando umas gotas de água, ou jactos, saltavam da banheira. A minha tarefa era, de esfregona na mão, evitar que o resto da casa se alagasse.

Só conheci os primeiros quatro irmãos, mas sei que a família aumentou, sei também que aos filhos dos meus quatro malandrinhos não vão faltar tios nem primos e que a mãe ainda vai a tempo de ser avó.

As famílias numerosas são hoje uma raridade, e compreende-se porquê, mas preocupa-me o facto de estarmos a criar filhos únicos, que nunca saberão o que é ter um irmão. E os nossos netos nunca saberão o que é ter tios ou primos. E nós, mães, que cada vez temos os filhos mais tarde, provavelmente nunca saberemos o que é ser avós.

Precisamos de um plano, rapidamente, semelhante àquele do banho, sob pena de estarmos a extinguir graus de parentesco.

 

Paula Brito

3 de agosto de 2019

 

"Baco" , pintura de Caravaggio

In vino veritas!

A tradução à letra da locução latina significa “No vinho a verdade” e remonta ao tempo dos romanos que em momentos de convívio, teatro e lazer (acho que à época estas três actividades andavam de mãos dadas) utilizavam uma máscara de cera que lhes permitia dizer o que lhes apetecia sob anonimato, era uma espécie de redes sociais do império romano.

A máscara só era retirada para beberem vinho ou dizer a verdade, o vinho passou assim a ser uma bebida sincera, “in vini veritas”, ou numa versão mais actual e popular “não diz o borrachão o que tem no coração?”

O vinho faz parte da nossa história e da nossa cultura. Em Portugal existem 380 castas diferentes de vinhos que foram trazidas pelos fenícios, gregos, cartagineses e romanos, que utilizavam o vinho como forma de pagamento e por isso carregavam com os pés de vinhas pelo império, porque não vinham por dias, ou meses, vinham cá passar muitas vindimas…

Se olharmos para uma garrafa de vinho que tenha o nome de uma herdade, é provavelmente um vinho alentejano, se tiver nome de quinta será do norte ou do centro.

Para percebermos o alcance recuamos, ou avançamos se ainda estivermos nos romanos, até à formação de Portugal e à conquista do território aos mouros. Aos cavaleiros que mais se distinguiam nas conquistas e para povoar o recém conquistado território, o rei dava terras para cultivar, em troca, recebia 20% das colheitas, ou uma quinta, por isso temos quintas sobretudo no centro e norte de Portugal.

Mas à medida que a conquista descia para sul, os mouros iam resistindo mais, obrigando o rei a aumentar os incentivos aos cavaleiros, que passaram a receber “terras de juro e herdadas”, e por isso no Alentejo há sobretudo herdades.

Já no século XV e XVI, o vinho assume uma grande importância nos descobrimentos portugueses já que era uma das formas utilizadas para prevenir o escorbuto, e tal como os romanos que levavam consigo os pés de vinha enquanto alargavam o império, também os portugueses faziam o mesmo enquanto conquistavam o mar, foi assim que nasceu uma das maiores regiões produtoras de vinho de África do Sul, Stellenbosch. Se calhar foi por isso que no consílio dos deuses, que Camões descreve nos Lusíadas, Baco foi o único que se opôs à chegada dos portugueses ao Oriente!

Já no séc. XVII o casamento da princesa portuguesa Catarina de Bragança com o rei Carlos II da Grã Bretanha, esteve na origem do vinho da madeira. Uma das “cláusulas” do casamento é que os ingleses podiam carregar os barcos num porto português à sua escolha e os ingleses escolheram…a Madeira. O problema é que não havia nada na Madeira, foi a partir dali que se começou a cultivar a ilha e claro, as vinhas que deram origem ao famoso vinho da Madeira.

No Séc. XIX, foi o nosso mais famoso vinho, do Porto, que traçou a estratégia da batalha de Trafalgar, que o almirante Nelson, do lado britânico, desenhou no mapa molhando o dedo no vinho do Porto, o único vinho que bebia aquele que é considerado o maior génio da estratégia naval.

O vinho é afinal história e cultura e não “uma droga cujo uso é lícito” conforme ainda hoje é definido o vinho na nossa legislação.

 

Paula Brito

27 de julho 2019

José de Almada Negreiros: Retrato de Fernando Pessoa (1964)

"Enigma de pessoa!"

 

Spell

From the moonlit brink of dreams I stretch foiled hands to thee

O borne down other streams, than eye can think to see!

O crowned with spirit beams! O veiled spirituality!

My dreams and thoughts abate their pennons at thy feet.

O angel born too late for fallen man to meet!

In what new sensual state Could our twined lives fell sweet?

What new emotion must I dream to think thee mine?

What purity of lust?

O tendrilled as a vine Around my caressed trust!

O dream‑pressed spirit‑wine!

Fernando Pessoa

 

Nunca estará tudo dito sobre Pessoa. Mas há umas vertentes do poeta menos conhecidas que outras. O poema que inicia este texto, “Feitiço”, traduzido em português, reúne as suas duas partes menos divulgadas: a poesia que escreveu em inglês e a espiritualidade.

O poema comprova ainda a genialidade de Pessoa, para quem a poesia não tinha segredos, fosse escrita na língua de Camões ou de Shakespeare. Educado na África do Sul, onde viveu e estudou dos oito aos 17 anos, Fernando Pessoa dominava a língua inglesa como a sua língua materna e traduziu obras de Shakespeare ou de Allan Poe para português, e obras portuguesas, de Almada Negreiros ou António Botto, para inglês.

À excepção da “Mensagem”, os únicos livros publicados em vida são colectâneas dos seus poemas ingleses. Os seus primeiros escritos foram em inglês, tal como os seus primeiros heterónimos, sendo o mais conhecido dos desconhecidos, Alexander Search, que criou em África do Sul.

Mas o seu primeiro poema, escrito com apenas seis anos, no mesmo ano em que perdeu o irmão e um ano depois de ter perdido o pai, foi dedicado à mãe. Com a ingenuidade e a simplicidade de uma criança que já tinha uma paixão por Portugal.

“Ó terras de Portugal, Ó terras onde eu nasci, por muito que goste delas, ainda gosto mais de ti.”

Se quisermos traçar uma linha na escrita de Pessoa, ela começa com este poema, em português, e termina com uma frase escrita em inglês, o dia antes de morrer no hospital S. Luís dos Franceses, em Lisboa, onde entrou com o diagnóstico de cólica hepática. “I know not what tomorrow will bring”, isto é, não sei o que o amanhã trará.

Fernando Pessoa ainda não sabia que a sua obra, passados 74 anos da sua morte, continua a ser estudada, pesquisada, lida, ensinada, criticada, às vezes incompreendida, mas sempre admirada. Pessoa ainda não sabia que os livros que não publicou em vida, foram publicados depois da sua morte, que a língua a que chamou pátria, não é só de Camões, é também de Pessoa. E se Camões relata na sua obra maior, Os Lusíadas, como os portugueses conquistaram o mar, Pessoa, na sua obra “Mensagem”, propõe um Portugal que conquiste agora o céu.

Este é o outro lado de Pessoa. O lado místico, espiritual e hermético, que se revela na “Mensagem”, como o próprio admitiu sobre essa faceta da sua personalidade “que nunca tinha sido suficientemente manifestada nas minhas colaborações em revistas, precisamente por isso convinha que ela aparecesse”.

Fernando Pessoa já tinha criado um heterónimo astrólogo, Raphael Baldaya, à luz do qual analisou o perfil de 150 personagens históricas e o mapa astral de Portugal, mas foi a primeira vez que revelou essa faceta na sua obra, no seu único livro publicado em vida: “A Mensagem”.

Fernando Pessoa queria inicialmente chamar o livro de “Portugal”, mas achou excessivo dar o nome da pátria à obra, decidiu então chamar-lhe mensagem “por estar mais dentro da índole do trabalho, e ainda por cima ter o mesmo número de letras”, justificou.

Só o título já encerra uma simbologia, só o título já diz o que é pretendido com o livro: enviar uma mensagem a Portugal, que depois de descobrir a geografia do mundo tem que descobrir o atlas da alma.

Para isso Fernando Pessoa socorre-se, simbolicamente, do mito do sebastianismo, isto é, a grandeza perdida por Portugal só voltará com o regresso do divino. “...Que importa o areal e a morte, a desventura se com Deus me guardei? E o que eu me sonhei que eterno dura, é esse que regressarei”. (D. Sebastião, em A Mensagem)

Um regresso que fará cumprir outro mito, o mito do Quinto Império “...Grécia, Roma, Christandade, Europa – os quatro se vão, para onde vai toda a edade. Quem vem viver a verdade, que morreu D. Sebastião?” (O quinto império, em A mensagem).

O Encoberto, que virá numa manhã de nevoeiro, é o próprio Pessoa que propõe um Portugal heteronizado, porque “o nosso destino é sermos tudo”, fazendo uma analogia com a sua própria heteronímia “ser tudo de todas as maneiras”, estabelecendo assim um império espiritual, um império que se falta cumprir. “Cumpriu-se o mar e o império se desfez, Senhor, falta cumprir-se Portugal. (O Infante, em A Mensagem).

Este apontamento não pretende analisar a Mensagem, isso já foi feito por muitos e bons pessoanos, mas sim suscitar a curiosidade sobre este lado místico e espiritual que o poema “Spell” revela, cuja tradução, numa versão livre, aqui fica.

Feitiço

À beira enluarda dos sonhos,  estendo frustrado as mãos ao outro,

Suporto outras torrentes, mais do aquelas que os olhos podem ver!

Ó coroada com raios de luz espirituais! Ó espiritualidade desvendada!

Os meus sonhos e pensamentos esmorecem, as suas asas a teus pés,

Ó anjo nascido tarde demais, por ter caído na tentação dos homens!

Neste novo estado de sensualidade, podem as nossas almas gémeas sentir o doce calor?                   

Que nova emoção devo eu sonhar para te pensar minha? Que pureza de luxúria?

Enlaçados como gavinhas de videira, envolvendo e acariciando a minha confiança!

Ó sonho forçado, espirituoso como o vinho!

 

Paula Brito

20 de julho de 2019

"Melancias" de Frida Kahlo

Viva a vida!

 

Foi o último quadro de Frida Kahlo, ou pelo menos ela assim o quis, já que o datou de 1954, uma semana antes de morrer, a 13 de Julho, faz hoje, portanto, 65 anos. A morte da pintora mexicana colocou um ponto final a uma vida trágica que Frida selou com este “Viva a vida”, inscrito na melancia. Uma inscrição que inspirou o vocalista do grupo Coldplay. Chris Martin quis homenagear a coragem da pintora dando o nome “Viva a vida” a um dos seus álbuns de maior sucesso.

Frida Kahlo nasceu na cidade do México em 1907, que mudou para 1910, ano em que começou a revolução mexicana, que só terminaria uma década depois. Frida quis, também na data de nascimento, ser uma filha da revolução.

Aos seis anos, uma poliomielite deixou-a com uma perna mais fina do que a outra, começando a usar as saias e os vestidos longos tão característicos da sua imagem e da sua obra, já que a maioria das suas pinturas são auto retratos, 55 no total, porque era o assunto que conhecia melhor. Com eles ía pintando a sua vida, por eles ía continuando viva.

“Não estou doente. Estou partida. Mas me sinto feliz por continuar viva enquanto puder pintar.”

Disse já depois do acidente que, aos 18 anos, lhe perfurou a coluna e o útero, que quase lhe retirou a vida e que a impediu de ter filhos. Engravidou várias vezes e várias vezes abortou. O seu quadro “Henry Ford Hospital”, pintado em 1932, retrata o doloroso tema na vida de Frida, que só começou a pintar depois do acidente.

A ex-estudante de medicina dedicava-se agora à pintura que quis mostrar a Diego Rivera, mais conhecido no México que a própria Frida. Além de revolucionário e colecionador de arte, Diego era um grande muralista. Um movimento que surgiu no México, na década de 20, como forma de democratizar a pintura que todos podiam apreciar nos murais dos monumentos. Diego Rivera é o autor da galeria do primeiro andar do palácio do governo, na cidade do México.

A pintura juntou-os, apaixonaram-se e casaram. Ela tinha 22 anos, ele 42. Um atribulado casamento, com traições mútuas, que terminou em divórcio quando Frida descobriu que o marido a traía há anos com a própria irmã e que os seus seis sobrinhos eram todos filhos de Diego. Mais um duro golpe na vida de Frida, retratado em várias obras como “Auto retrato com cabelo cortado”, onde Frida aparece com o cabelo curto, que era o que Diego mais gostava nela.

Mas esta história não acaba aqui. Frida, que gostava mais de Diego do que “da própria pele”, voltou para o ex-marido no mesmo ano. A solução encontrada foi construir uma casa ao lado da outra, com uma ponte. Era a ponte que a unia a Diego, que também retratou na sua obra, era a pintura que a fazia respirar. Uma pintura que na Europa quiseram classificar de surrealista, mas que Frida negou “nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade”.

No final da vida, a saúde de Frida começou a deteriora-se e teve que amputar uma das pernas. Um tema que também pintou e sobre o qual escreveu: “Pés? Para que te quero se tenho asas para voar?”.

Acamada, mandou construiu dois quartos no rés-do-chão da casa azul, hoje transformada em museu, um para o dia e outro para a noite. Foi numa cama que assistiu à primeira exposição das suas obras no México, apesar de já ter tido exposições noutras partes do mundo, como Nova Iorque ou Paris, onde já era mais famosa do que no seu próprio país.

Foi uma das suas últimas aparições públicas. Frida Kahlo morreu no dia 13 de Julho de 1954 de embolia pulmonar. Ainda hoje se especula se teria sido suicídio, devido à quantidade de medicamentos que tomava para as dores e à última frase que escreveu no seu diário “Espero que a minha partida seja feliz e espero nunca mais voltar”.

Mas Frida amava a vida, amava Diego, amava a pintura, amava o México... e ninguém que ama tanto e que suportou tanta dor para viver, fazendo da dor a própria vida, a termina desta forma.

“Viva a vida!”

Paula Brito

13 Julho de 2019 – 65 anos da morte de Frida Kahlo

Quadro de Savonarola, pintado por Moretto de Brescia

Eu, praticante de yoga, me confesso!

 

Há uma semana atrás, no “Dia de passeio” que publiquei sobre o quadro de Botticelli, referi-me ao monge Savonarola que, no Séc. XV, aterrorizou Florença instaurando um regime severo e queimando, na terça-feira Gorda de 1497, todas as imagens “lascivas”, como adornos e cosméticos de mulheres, obras de arte e livros, na sua “fogueira das vaidades”.

Recordo esta passagem do “Dia de passeio”, porque foi a imagem do monge fanático que me veio à ideia a ouvir a homilía do padre que, no último domingo, substituiu o padre do Fundão na eucaristia, transformando a igreja num tribunal do santo ofício.

O padre, que condenou a prática do yoga e do reiki, acendeu a sua “fogueira de heresias” e nela queimou as imagens de budas que tem visto nas casas que vai benzer, o partidarismo, as bebedeiras, a fornicação, orgias e coisas semelhantes. Modernismos!

Durante o seu ritual fanático, o padre condenou ainda a superstição, a magia e a idolatria. Estaria ele a condenar também as festas de adoração aos santos padroeiros que se fazem anualmente por essas terras? Não, claro que não. No Cristianismo não há idolatria, até porque seria dificil idolatrar tantos santos, martírios, imagens e rituais! Só no budismo, religião de um ídolo só. Que heresia!

“Oh! Filhos, tende cuidado. Quem é que vos vai salvar, é Buda?” Condenando as religiões que vêm do Oriente para invadir a Europa “e a nossa igreja”, o padre continuava a deitar as práticas pagãs na fogueira “hoje as pessoas praticam yoga e reiki durante uma hora e são incapazes de vir aqui fazer uma visita ao santissimo, venham cá cinco minutos que eu dou-lhes paz!”

Mas o padre tinha uma boa notícia para os fiéis que, por esta altura, já se remexiam nos bancos de madeira, entre a incredulidade e a indignação: “existe sempre a confissão!” Desde que não se ajoelhem frente ao confessionário, da mesma forma que praticam yoga.

“Toda a pessoa que peca é do Diabo!” Continuava, para alívio de quem procurava há muito explicação para a Inquisição. Foi o Diabo o culpado da perseguição, da condenação, da tortura e da morte de milhares de pessoas ao longo de séculos.

O que me preocupa é que, mesmo depois de João Paulo II ter pedido desculpa pela Inquisição, a instituição permanece como parte integrante da Cúria Romana, recebendo, desde 1965, o nome de Congregação para a doutrina da fé, e nunca se sabe quando à frente da congregação estará um Prefeito incendiário, que delire com  rituais de fogueiras.

Paula Brito

6 de julho de 2019

A fábula do Pedro e do lobo, contada a fogo

 

O primeiro incêndio de verão incendiou o país. Eram cerca das 14h, do dia 22 de Junho, quando o mato começou a arder no Fundão. O fogo, que esteve “praticamente dominado” durante toda a tarde, mas sujeito aos caprichos do vento, só foi dado como dominado cerca das 20h, sendo que, para a Protecção Civil, a extinção só é decretada muito depois, às vezes dias depois, feito o rescaldo e a vigilância no local para prevenir reacendimentos.

Mas na comunicação social, o incêndio ganhou proporções incontroláveis, ao ponto do presidente da câmara do Fundão ter recebido mensagens de solidariedade de quem assistia na televisão ao relato do incêndio que aconteceu numa quinta, ironicamente chamada de Esparrela.

No incêndio, rodeado de terreno agrícola, nunca estiveram casas em perigo e não chegou a 100 hectares a área ardida, o número mínimo para ser considerado um grande incêndio em Portugal, sendo que na Europa o número sobe para 500 hectares. Tratou-se portanto de um incêndio sem significado estatístico num distrito onde 400 mil dos seus 600 mil hectares são de floresta e mato, num distrito onde este ano já houve outros incêndios de maiores proporções e consequências.

No terreno, são várias as condições que podem transformar um fogo num grande incêndio: a humidade, o vento, a limpeza do local, os meios envolvidos, a dificuldade nos acessos, a rapidez no ataque, mas para ganhar grandes proporções na comunicação social basta ser sábado e ser o primeiro incêndio de verão.

Só isso justifica o facto do presidente da câmara do Fundão ter sido informado pelas redações de Lisboa da “calamidade” que estava a acontecer no seu concelho, à sua porta. E nem o desmentido de calamidade acalmou a sede de notícias de fogo e imagens de chamas no primeiro dia de verão.

A situação pedia diretos no local, e mesmo depois do repórter ter relatado o que se estava a passar, de Lisboa insistem: Mas não há casas em perigo? É que daqui de Lisboa parecia mesmo!

O problema é que ainda agora o verão começou, e se um dia for mesmo calamidade já ninguém acredita que o fogo está a ameaçar as ovelhas do Pedro, a casa do Manuel ou a floresta que ninguém sabe a quem pertence.

Paula Brito

29 de Junho de 2019

 

Uma aventura em Paris

 

Do que sentem mais saudades os emigrantes? A pergunta foi feita durante o programa “Prós e Contras” que, no dia 10 de Junho, debateu Portugal. Procurei em mim a resposta recordando a minha aventura de emigrante, por um mês, em Paris.

Era ama de companhia de uma senhora de idade, tipicamente francesa, que não falava nem percebia português, comia a salada, o arroz e a carne separadadamente enquanto olhava com ar enojado para o meu prato colorido, e gostava de comer fruta fresca todos os dias, o que me obrigava a sair todas as manhãs para ir à frutaria. Normalmente procurava a mais longínqua, para poder passear pelo Trocadéro e apreciar esta bonita e rica zona de Paris, que cheirava a crepes.

Naquela manhã decidi entrar numa frutaria diferente e pedi, em francês, bien sur, “quatre pêches”. O rapaz respondeu ao meu pedido de quatro pêssegos, com uma pergunta, em português: - Dos vermelhos ou dos amarelos? Nasceu-me uma alma nova. Há quanto tempo não ouvia alguém falar português! E que bem que soava no meio de Paris. Estava aqui a minha resposta à pergunta do programa da RTP1: do que eu senti mais falta foi da língua portuguesa.

Passado o impacto inicial, vieram as dúvidas, e perguntei se a minha pronúncia francesa era assim tão má, ao ponto de ele ter percebido que eu era portuguesa. Respondeu-me que já era emigrante há muitos anos, que todos os dias eu passava naquela rua e que tinha apostado com o colega que eu era portuguesa, reconhecia um português à distância, pelo andar, pela estatura, pelas feições...

Percebi nesse dia que era portuguesa dos pés à cabeça, uns dias mais tarde perceberia também que só me faltava o nome.

Durante a minha aventura de um mês de emigrante em Paris, o médico foi visitar a madame Emmeler, era assim que se chamava a senhora que me pagava uma fortuna para lhe fazer companhia e comprar fruta fresca todos os dias. Abri-lhe a porta. Assim que me viu perguntou-me, na certeza que eu era portuguesa: - Maria? Quando eu respondi que me chamava Paula, ele retificou: - Ah! Italiana...

Para os franceses todas as portuguesas são Marias, e não é por acaso, é que o nome, apesar de divulgado em todo o mundo através da bíblia, ganhou em Portugal o estatuto de mulher.

Naquela noite, ao jantar, a conversa era sobre bacalhau. Perguntava-me porque comíamos aquele peixe “horrible”. Respondi-lhe que pescávamos bacalhau desde o século XVI, que era o peixe que melhor se conservava em sal, e que para nós era tão importante que houve tempos em que o trabalho era pago em sal, daí a origem da palavra salários.

Contei-lhe ainda a história da minha tia emigrante que convidava as amigas francesas para jantar e fazia sempre bacalhau, à Zé do Pipo, à Bráz, à Gomes de Sá, escondido, com natas... e elas adoravam, sem saberem que o peixe estranho que tanto desprezavam podia transformar-se no melhor dos repastos. Ela continuava com ar enojado, mas agora sorridente da patriótica partida.

Aprendi a gostar de fado em Paris. Eu era jovem, gostava de músicas alegres, de dançar, e o fado era triste, parado, ainda por cima cantado com voz tremida, quase chorosa. Achava que, tal como o vinho tinto, mais tarde haveria de gostar de fado. Estava enganada, não era uma questão de tempo, mas uma questão de saudade. E a música portuguesa, que procurava na Rádio Alfa, era para mim um bálsamo: “Se uma gaivota viesse, trazer-me o céu de Lisboa”.

Apesar de ser uma marca de Portugal, o fado é recente na história de quase nove séculos do nosso país. O mais antigo fado conhecido, o do marinheiro, data de 1840. “Perdido lá no mar alto, um pobre navio andava, já sem bolacha e sem rumo, a fome a todos matava...” cantavam os marinheiros na proa de onde avistavam “as terras de Lisboa”.

Do latim “fatum”, que significa destino, o fado pode ser triste e trajado, alegre, vadio ou desgarrado, mas sempre sentido, sobretudo se ouvido distante, se ouvido com alma de emigrante.

Ter sido emigrante apenas por um mês despertou em mim os mais patrióticos sentimentos, e isso faz-me questionar os sentimentos de quem fez da emigração vida, do destino distância, estrangeiros no país que os acolhe, forasteiros no país de origem, vivendo entre a saudade de regressar e a ansiedade de ter que partir.

Segundo o último relatório das Nações Unidas, são mais de dois milhões e 200 mil portugueses emigrados pelo mundo, ou melhor, a conquistar o mundo, sem armas ou caravelas, munidos de saber e labor, movidos a saudade.

Paula Brito

22 de junho de 2019

Já não há esparteiros!

 

A placa com o nome “Rua dos esparteiros” despertou a curiosidade do casal de turistas que visitava a festa da cereja, em Alcongosta, no último fim-de-semana. Ele perguntou-se em voz alta: - O que serão esparteiros? - Devem ser aquelas coisas que as mulheres usavam antigamente! Responde ela, referindo-se aos espartilhos.

Interrompi educadamente, fiz o que gostaria que me fizessem. Expliquei que os esparteiros eram os homens que antigamente trabalhavam o esparto, uma planta que cresce selvagem na Gardunha e que as gentes de Alcongosta transformavam em seiras, quando os lagares ainda eram artesanais e precisavam destes utensílios para escoar o azeite. Com a industrialização dos lagares, os esparteiros passaram a ser artesãos e a fazer peças de decoração. - E ainda há esparteiros? Perguntaram. A resposta foi curta e fez gemer o esparto na Gardunha. - Não. Hoje já não há esparteiros.

O último esparteiro de Alcongosta chamava-se José da Encarnação e era tão desembaraçado a manusear o esparto como a fazer rimas. “Muito molho de esparto eu acartei da barroca do bicho, comendo pão e azeitonas, porque não tinha chouriço” dizia com a mesma alegria com que cantava a lenda da Senhora da Serra.

Conhecia a Gardunha como a palma da mão onde ia arrancar o esparto, cujo ciclo de vida também conhecia e respeitava “o esparto não se ceifa, arranca-se pela raiz, se estiver pronto sai facilmente e no local nasce outro, se não estiver pronto custa a arrancar”. Depois carregava o esparto para a aldeia aos molhos, que transformava em seiras, capachos, cestos, almofadas “e até berços do menino Jesus já me pediram”.

José da Encarnação dizia que os velhos são missais, tal é o conhecimento que trazem, e da mesma forma que avaliava o tempo só de olhar para o céu, também era um perspicaz comentador “se todas as terras fossem como Alcongosta, o país era rico” sentenciava, referindo-se à capacidade das gentes daquela aldeia serrana  tirarem partido da serra. Primeiro dos castanheiros, de onde retiravam a madeira para fazerem cestos, e depois, das cerejeiras, que começaram a plantar quando os cestos foram substituídos por caixas de plástico.

Sabia que era o último esparteiro na aldeia e no país, sabia que quando morresse a arte morreria consigo, ainda tentou ensinar os mais jovens, mas nenhum lhe deu continuidade.

Na aldeia, ficou o nome da rua que ainda desperta a curiosidade de alguns. Na serra, como dizia, “as pedras da Gardunha até choram por mim”, e o esparto, uiva de saudade de quem lhe renovava a floração.

Paula Brito

15 de Junho de 2019

A vida em números

 

Quando nascemos somos um número. Antes de termos um nome, já temos uma pulseira com um número, na maternidade. Depois vem o número de cidadão, de contribuinte, de utente, da segurança social, do telemóvel, o número de código dos cartões de crédito, de débito, de acesso à porta do prédio…

Começámos a contar antes de aprender a falar. Ainda hoje, os bébes mostram primeiro o número de dedos, antes de dizerem quantos anos têm. E é só o começo, porque a partir daí a vida é controlada por números: que horas são? A quantos quilómetros ías? Que nota tiveste? Quanto é que custa?

Transformamo-nos em números quando entramos no banco, na repartição de finanças, no talho, na padaria... e aí nem nos perguntam o nome, só querem saber que número somos.

Os números fazem parte do nosso dia-a-dia, mesmo sem nos apercebermos, e acompanham-nos até à hora da morte. Quantos anos tinha? É normalmente a pergunta que nos assalta quando sabemos que alguém morreu. Não queremos saber o que fez na vida, mas quanto tempo durou a sua vida.

Na minha profissão, por exemplo, adoramos números. Queremos sempre saber quanto vai custar, quanto tempo vai demorar, quantas vítimas, qual é a percentagem de desempregados, enfim, os números quantificam, dão credibilidade e peso à notícia.

Dizer “há 700 mil desempregados”, não é o mesmo que dizer “Joana vive sozinha, tem dois filhos menores a seu cargo, é velha demais para trabalhar e nova demais para se reformar, Joana caiu no desemprego aos 47 anos e é uma das 700 mil pessoas desempregadas no país”. Este é um bom exemplo de quando deixamos de ser um número para passarmos a ter um nome, um rosto, uma história.

Mas não se pense que os números são frios, exatos e nunca se enganam, porque há números que despertam as mais variadas emoções: o apaixonado 4, o azarado 13, o problemático 31, o erótico 69, o brincalhão 81, o interminável 1001...

Depois há os números cheios de misticismo e simbologia como o sete. Não são 7 os dias da semana? E sete os pecados mortais? Sete as cores do arco íris e 7 as notas musicais? Será por isso que chamam ao homem multifacetado o homem dos sete instrumentos?

Dizem que os mares são só sete e que Roma se ergue em 7 colinas, e tal como o corpo tem sete chacras, o gato tem sete vidas. O sete une ainda o espírito com a matéria, um segredo fechado a sete chaves.

A simbologia do três, por exemplo, está muito presente no Cristianismo: a santíssima trindade (pai, filho, espírito santo), os três reis magos (Melchior, Baltazar e Gaspar), os 30 dinheiros que simbolizam a traição de Judas, Jesus morreu com 33 anos e ao 3.º dia ressuscitou.

Os números também fazem parte do nosso imaginário: Alibábá e os 40 ladrões, Branca de Neve e os Sete anões, Os três porquinhos, Os três mosqueteiros, As aventuras dos Cinco, são apenas algumas das mil e uma histórias de encantar...

Os números também podem ser de prata (25), de ouro (50) ou de diamante (75), mas não podem casar, porque só há primos na família, apesar de poderem andar aos pares e criarem raízes. E como em qualquer família numerosa, há sempre o rezingão, como o dois que gosta de ser quadrado.

O zero, se à esquerda não vale nada, à direita faz o milagre da multiplicação.

Depois do 0, vem o convencido 1, que chega sempre em primeiro e acha que como ele não há nenhum.

O número 2 é o que vem depois, para dar equilíbrio ao mundo: há sempre dois lados, o positivo e o negativo, duas versões da mesma história, o dia e a noite, o frio e o calor...

Depois vem o 3, bonito e criativo como vês.

Já o 4 parece querer orientar-nos na vida: São quatro as estações do ano e quatro os pontos cardeais, existem quatro elementos e quatro virtudes cardinais.

Se o quatro nos orienta, é o 5 que nos alimenta o corpo, a mente e a alma, com os seus cinco sentidos - sabor, olfato, visão, audição e tato.

Depois vem o perfeito 6, que tudo simplifica com a meia dúzia a mil reis.

Já conhecemos a magia do 7, passemos ao número 8 que com a sua infinitude se apresenta, não conhecendo meio termo, entre o oito e o oitenta.

Depois vem o 9 a lembrar que estamos a chegar ao fim dos meses de gestação e prestes a iniciar um novo ciclo.

Os números estão afinal cheios de significado, de emoções e simbologia que podiam ensinar na matemática, antes do be á bá da tabuada. Aprendemos melhor quando sentimos.

Pitágoras, um grande matemático que foi também filósofo, ou um grande filósofo que também foi matemático, dizia que, “os afectos podem às vezes somar-se, subtrair-se nunca.”

Paula Brito

8 Junho 2019

 

Parabéns Mafalda, hoje é o teu dia!

 

Não de aniversário, que esse comemoras a 15 de março, mas o dia mundial da criança. Bem sei que nasceste em 1963, e que nesta altura já deves estar a pensar na reforma de tradutora na ONU, se seguiste os teus sonhos, mas para mim, e para o resto do mundo, vais ser sempre a menina inconformada e contestatária, que ama os Beatles com a mesma intensidade que detesta sopa, que encanta crianças e adultos, e que conquistou, com o seu humor peculiar, a América e a Europa.

O meu fascínio pela Mafalda vem da adolescência e nunca passou, nem com a idade! Há muito que tenho toda a coleção da personagem de banda desenhada criada pelo cartonista argentino Quino, anagrama de Joaquín Lavado, aos 31 anos. Se a Mafalda fosse portuguesa diria que Quino arranjou um trinta e um, porque nunca mais se conseguiu ver livre dela, nem depois de 1973, ano em que deixou de a desenhar.

Ao fim de tantos anos de uma ditadura militar, e depois de restituida a liberdade à Argentina, Mafalda entendeu que também os leitores tinham o direito de se ver livres dela.

Mas como todos os que partem cedo demais na sua arte, também Mafalda se tornou um ícone da banda desenhada. E pensar que foi criada para ser o rosto de uma campanha publicitária que nunca se chegou a concretizar!

Na estante da sala, por entre as cores sóbrias da enciclopédia, dos dicionários e dos livros de história, sobressai a colorida coleção da Mafalda. A alegria que dá à estante é semelhante àquela que dá à minha vida.

Se me apetece um vestido e um salto alto e sou questionada se o dia é de festa, digo que “às vezes é preciso levar o instinto feminino a passear.”

Se tenho que ir trabalhar naquela noite em que a família ou as amigas marcaram um jantar, lamento que “o urgente se sobreponha sempre ao importante.”

Quando na passagem de ano todos esperam que o novo ano seja melhor, eu aposto, “que o novo ano também espera que as pessoas sejam melhores”...

Esta é a Mafalda no meu dia a dia, nas tiras de Quino, Mafalda não está sozinha, através da sua família e amigos, o cartonista brincou, refletiu e criticou a sociedade.

O pai da Mafalda trabalha numa companhia de seguros, a mãe é dona de casa, resignados, aceitam a rotina e refugiam-se no Nervocalm, um calmante que aparece sempre que a Mafalda decide fazer perguntas ao pai sobre filosofia, sexo ou democracia. O mesmo calmante que Mafalda aconselha a lua a tomar, na tira publicada em vésperas da viagem espacial Apolo 11 que levou os primeiros homens à lua.

Mais tarde, Quino decide dar um irmão à Mafalda, Guilherme, tratado carinhosamente por Gui, e inspirado num sobrinho “simpático e descarado” do cartonista. Mafalda assume o papel de irmã mais velha. Lê o jornal ao irmão, que quer saber se as chuchas já aumentaram, e desculpa os progenitores dizendo ao pequeno Gui que antes deles, os pais nunca tinham educado ninguém!

Além da família, Mafalda está rodeada de amigos.

O Manelinho, que só pensa em dinheiro e que gosta de se dedicar à mercearia que os pais têm no bairro, é o arquétipo do emigrante espanhol na Argentina. Pouco dado aos estudos, Manelinho lamenta as más notas que a professora lhe dá “ainda se eu viesse à escola de vez em quando, agora fazer isto a um freguês!”

A fútil e cuscuvilheira Susaninha, que representa o novo riquismo e que só pensa em casar, e nada vai impedir a sua felicidade, já que procura o homem perfeito: rico, alto, moreno, de olhos verdes e...sem mãe.

O egocêntrico Miguelito, com cabelo de salada, que aparece com as mãos nos bolsos, na tira publicada depois das eleições de 1973 que deram metade do total dos votos aos peronistas, a dizer: “Isso não é nada! Se tivesse sido eu o candidato!”

O sonhador Filipe, que gosta de se deitar à sombra, porque “a fama virá depois”.

E finalmente, a última personagem que chegou à vida da Mafalda, a pequena Liberdade, cujo tamanho diz tudo, tal como o nome que Mafalda deu à sua tartaruga... Burocracia.

O adeus chegou em Junho de 1973, eu tinha acabado de nascer e a Mafalda de morrer, pelo menos na pena de Quino. Foram poucas as vezes que o autor a ressuscitou e uma dessas raras vezes foi em 1976, quando a UNICEF lhe pediu para ilustrar os 10 princípios da declaração universal dos direitos da criança.

“E estes é mesmo para respeitar, está bem? Que não lhe aconteça o mesmo que aos 10 mandamentos.”

Paula Brito

1 de junho de 2019 – dia mundial da criança

A PERSONALIDADE DA LÍNGUA PORTUGUESA

 

Os estrangeirismos vieram para ficar, entram sem pedir licença no nosso léxico e coabitam com a língua de Camões, sem pejo nem pudor.

Hoje já não se fazem brochuras, distribuem-se flyers, dando razão aos Clã quando cantam “a língua inglesa fica sempre bem e nunca atraiçoa ninguém”. A língua portuguesa até pode ser traiçoeira, mas, tal como os portugueses, ela é tolerante. Abriu as portas do alfabeto ao y, w e k, e convive com os estrangeirismos como se fossem made in Portugal.

A língua portuguesa tem ritmo próprio, gosta de marcar encontros lá para as, cerca das, por volta das... adoramos locuções adverbiais! Só somos permeáveis à língua, já que a pontualidade, de britânica, nada tem.

A língua portuguesa é afectiva, utiliza sufixos consoante as emoções. Se quer dizer que é um belo rapaz, chama-lhe rapagão, se o sentimento é de compaixão, é um rapazito, mas se o tom for depreciativo, então é um rapazote.

A língua portuguesa é delicada, não quer um café, ela queria um café, se não fosse muito incómodo, claro.

A língua portuguesa é divertida, brinca com as palavras como ninguém, chama geringonça à aliança política que governa o país e salamaleques às formalidades.

A língua portuguesa é apaixonada, saudosa, sentida, sobretudo se cantada ou declamada. Este sentimentalismo não passou despercebido ao poeta castelhano Lope de Vega, que escreveu a propósito:

“A un português que llorava, preguntaron la ocasión. Respondió que ele corazon, e que namorado estaba. Por minorar su dolor, le preguntaron de quién? Respondió: - Pues de ninguén, lloro de puro amor”.

Sei que não precisa de tradução. Ao contrário de nuestros hermanos, que chamam aos nossos Xutos e Pontapés, Patadas e Patadas, nós recusamo-nos chamar Pedras Rolantes aos Rolling Stones, e fazêmo-lo com o melhor dos sotaques.

A nossa capacidade de assimilar e falar inglês deixa os próprios ingleses admirados! Eles bem tentam aprender a nossa língua, mas como? se ninguém fala português? No restaurante, no hotel, no café, na rua, todos os portugueses sabem falar inglês, está-lhes no sangue.

Num destes dias, atrás de um balcão, entrou um inglês a quem prontamente perguntei: - May I help you? Ao que ele me respondeu: - Falas português?

O que ele queria mesmo era aprender a falar a nossa língua, assimilar a nossa cultura, não fossem os portugueses estragar-lhe os planos!

A língua portuguesa é cheia de personalidade, deixem que ela fale, e vai dizer muito da cultura de um povo.

Paula Brito

25 maio 2019

 

NO INTERIOR NÃO HÁ VOTOS... MAS HÁ PAISAGEM

 

Esta semana Marisa Matias visitou o Cabeço do Pião em campanha eleitoral.

O Cabeço do Pião é uma pequena aldeia, anexa da freguesia de Silvares, no concelho do Fundão, que faz parte do complexo das Minas da Panasqueira por ali se encontrar a lavaria, para onde era transportado o material extraído da mina, lavado e crivado com a preciosa ajuda das águas do rio Zêzere.

No início da década de 90, do século passado, o complexo foi desativado e com ele praticamente toda a aldeia. A lavaria passou a estar concentrada na Barroca Grande, do outro lado do rio, no concelho da Covilhã, onde está a sede da empresa que ainda hoje explora as centenárias Minas da Panasqueira e que emprega atualmente 280 trabalhadores.

Serve esta introdução para contextualizar o cenário escolhido pela candidata do Bloco de Esquerda às eleições europeias.

Ao terceiro dia de campanha, Marisa Matias percorreu as 147 curvas que separam a cidade do Fundão da vila de Silvares, desceu o sinuoso percurso até ao Cabeço do Pião, subiu por uma estrada de um só sentido, com toda a comitiva e jornalistas, e no alto das escombreiras, com a barragem de lamas tóxicas aos pés, quando todos pensavam que ia falar de ambiente, a candidata desenterrou os fantasmas do fascismo, em jeito de alerta para as sombras da extrema-direita que pairam sobre a Europa. O mote foi o volfrâmio que saiu das Minas da Panasqueira para alimentar duas guerras mundiais.

Marisa Matias não vinha para falar da região, e só isso explica o facto de ter dito que as Minas da Panasqueira estão desativadas desde 1993.

Confundir o Cabeço do Pião com as Minas da Panasqueira podia ser só uma imprecisão geográfica sem qualquer importância. Dizer que as Minas da Panasqueira estão encerradas desde 1993, deixando a região ao abandono é uma meia verdade. Mas insistir no discurso da “terra dos pobres” e no desmantelamento da mina, mesmo depois de lhe ter sido dito, pela comunicação social regional, que as Minas da Panasqueira continuam a laborar… é de quem veio à procura do cenário ideal para falar de fantasmas.

Mas a Marisa Matias disse, está dito. As televisões, rádios e jornais registaram e comunicaram ao país, logo é oficial. As Minas da Panasqueira estão encerradas desde 1993. E ninguém avisou o sindicato dos mineiros. Distraídos!

A boa notícia é que vem aí outra campanha eleitoral, e lá para Outubro algum partido se vai lembrar de reeditar a clássica visita ao fundo da mina, levar as televisões, rádios e jornais atrás e a verdade será reposta.

Ao interior podem faltar votos mas, felizmente, não faltam paisagens para um bom enquadramento de campanha.

Paula Brito

18 maio de 2019

 

Cerejas: eu desejo, tu desejas...

 

Depois da flor povoar de alvura a Gardunha, chegou o fruto da cor da paixão, não o proibido, mas o mais apetecido, porque há muito desejado. São dois meses de prazer e de labor: Maio, quando as leva o gaio, e Junho, colhidas a cesto e a punho.

Efémera e frágil, como a vida, a cereja marca também o calendário agrícola. “Do cerejo ao castanho, bem eu me havanho, mas do castanho ao cerejo, mal me vejo”. Era a poética e proverbial forma dos nossos antepassados dizerem, quando as estações do ano ainda não se confundiam, que da Primavera ao Outono (do tempo das cerejas ao tempo das castanhas) não há mãos a medir para aproveitar o calendário solar, mas no Inverno... mal me vejo!

Diz ainda o povo, dizendo tudo, que “a mulher e a cereja para seu mal se enfeita”. Elogiosas palavras à mulher que já é naturalmente bela, não precisando de enfeites... mesmo que sejam brincos de cereja.

Mas a cereja em cima do bolo, para premiar o que já de tão bom se disse sobre este suculento e carnudo fruto, é o adágio “as conversas são como as cerejas”, ninguém consegue comer só uma se tiver um punhado na mão. E não são só as conversas, as leituras, os poemas, as ideias, as palavras, também são como as cerejas, vêm umas atrás das outras.

Sendo poética, cereja é de difícil rima, mas se for do Fundão...

Ganha forma de coração,

É fonte de inspiração,

Põe na mesa o conduto e o pão,

É padroeira de celebração,

Vai bem com gelado e com requeijão,

Devora-se com paixão!

 

Paula Brito

11 de maio de 2019

Foto: Miguel Proença

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

 

Muda-se o ser, muda-se a confiança, todo o mundo é composto de mudança...” nem a língua de Camões é alheia ao tempo e às vontades. E não estou a falar do acordo ortográfico, mas da mudança decorrente de novas geografias, tecnologias e outras euforias.

A palavra velho, por exemplo, caiu em desuso. Idoso parece ter sido uma palavra criada depois de uma operação plástica ao velho, retirando-lhe todas as rugas, essas irrefutáveis provas de sabedoria. “Velhos são os trapos!” diz o povo, mas não são velhos os melhores amigos? E onde está a poesia da palavra idoso? Alguém imagina Eugénio de Andrade escrever “Idoso, idoso, idoso, chegou o inverno”? E quem é que despertaria para a leitura do livro “O idoso e o mar”?

E já que rebatizámos os velhos, decidimos também rebatizar os lares. Agora, quando chegamos à velhice, já não deixamos a nossa casa para irmos para outro lar, agora vamos para uma Estrutura Residencial Para Idosos, ou para simplificar, para uma ERPI. Mas haverá palavra mais simples e mais cheia de significado do que a palavra lar? Podemos sempre tentar: “Erpi, doce Erpi”...

As mudanças organizacionais trouxeram também novas palavras à língua portuguesa, mas mais uma vez deixaram de lado a poesia associada às palavras. A Beira, “onde as searas cruzam o granito”, como escreveu o poeta albicastrense António Salvado, está agora dividida em duas comunidades intemunicipais. Que inspiração proporcionará aos novos poetas as palavras Comunidade Intermunicipal?

Isto para não falar nas origens. “Sou filho desta Beira”, disse-me numa das suas últimas entrevistas o poeta Albano Martins, e eu pergunto, que tipo de paixão e amor à terra é despertada nos filhos desta Comunidade Intermunicipal?

E finalmente, há palavras em vias de extinção, que só a poesia preserva, como... cartas de amor. Quem as não tem? Aposto que todos aqueles que têm menos de 20 anos. Hoje já não se escrevem cartas de amor, e não é porque não há amor, mas porque já não se usam cartas. Felizmente, ou talvez não, Fernando Pessoa não viveu no século XXI, porque “E-mails de amor” não têm nada de poético, só de ridículo. E se é para serem ridículas, então, que sejam cartas de amor.

Paula Brito

4 de maio de 2019

Foto: Miguel Proença

"Mãe, vamos brincar?"

 

Esta semana, a ler um artigo na revista “Crescer” online sobre brincoterapia, isto é, a necessidade de proporcionar estímulos às crianças para brincarem sem a atração das tecnologias e a pressão das agendas preenchidas, recuei à infância passada numa aldeia onde o tempo era a última das preocupações e a ansiedade só existia uma vez por mês, no dia em que a carrinha da Calouste Gulbenkian chegava à aldeia carregada de livros. Ainda lhes sinto o cheiro, ainda me lembro da avidez com que líamos aqueles tesouros.

Para além do “Verão Azul” e do “Tom Sawyer”, que víamos na televisão espanhola, ler era a única actividade lúdica que fazíamos dentro de casa, as brincadeiras eram todas ao ar livre, a jogar à pedrinha, ao arco, ao jogo do pau, às escondidas, à macaca...

Os fins-de-semana e férias grandes eram passados na quinta do meu avô, onde eu e a filha do pastor batizámos todas as laranjeiras, saltámos todas as giestas, subimos a todas as oliveiras...como eu adorava passar ali o tempo, apesar de não haver electricidade e, em noites de vento, os eucaliptos uivassem como lobos.

É por isso que hoje, sempre que oiço a pergunta “mãe, vamos brincar?” calço as sapatilhas e vou com o meu filho ao parque, jogar à bola, desfolhar malmequeres, subir às árvores ou tomar um inesperado banho quando ficamos até mais tarde, nas noites quentes de verão, e os aspersores se ligam sem aviso.

É por isso que não dou como perdido o tempo em que me transformo em ladrão, veterinária, policia, investigadora de animais em vias de extinção ou colega de escola do Miúdo Perigo, e entro no mundo da fantasia.

“Brincar torna-nos mais felizes!” termina assim o artigo que deu o mote a este apontamento... há coisas que não devemos perder de vista, independentemente da idade.

Paula Brito

27 de abril de 2019

Sabbatum Sanctum!

 

Aleluia, hoje é sábado, ou melhor, hoje é sábado de Aleluia.

Para trás ficou uma semana de celebrações associadas ao período que antecede a Páscoa, como as “Ermidas” que no Fundão se realizam na quinta-feira santa e que têm a particularidade de envolver toda a comunidade. Sete instituições ficam responsáveis por representar, nas sete capelas da cidade, um quadro da Paixão, ao vivo. É neste período, que vai do julgamento à crucificação de Jesus, que encontramos origem em algumas das expressões populares que utilizamos passados mais de dois mil anos.

A expressão “andar de rodes para pilotes” é uma adaptação oral da frase andar de Herodes para Pilatos, isto é, andar de um lado para outro à espera que um problema seja resolvido.

Pilatos, governador da Judeia, sabendo da inocência de Jesus, mas ao mesmo tempo querendo agradar os populares que pediam a sua condenação, decidiu enviá-lo para Herodes, que apesar de só ter autoridade na Galileia, estava de visita a Jerusalém. Pilatos alegou que Jesus vinha da Galileia, logo era da sua jurisdição. Mas também Herodes, apesar do escárnio e desprezo com que o tratou, não achava nenhuma culpa àquele homem e decidiu enviar Jesus de volta para Pilatos.

É daí que vem a expressão “andar de Herodes para Pilatos”, que o tempo e a oralidade transformou em “andar de rodes para pilotes” à espera da solução para um problema que ninguém quer resolver.

Retomando o Evangelho, Pilatos ainda faz uma derradeira tentativa propondo aos populares libertar um prisioneiro: Jesus ou Barrabás, um afamado malfeitor que o povo decidiu libertar gritando o seu nome.

Pilatos ordenou então que lhe trouxessem uma vazilha com água e nela lavou as mãos dizendo-se inocente do sangue de Cristo. Mas o simples lavar de mãos não foi suficiente para lavar o peso da culpa que ainda hoje pesa sobre Pôncio Pilatos sempre que utilizamos a expressão “lavar as mãos como Pilatos”, aligeirando as nossas responsabilidades ou, para utilizar outra expressão idiomática, “sacudindo a água do capote”.

Paula Brito

20 de abril de 2019

“Senhores Doutores!”

 

A chamada de atenção da juíza, dirigida aos advogados e procuradora do ministério público, ecoou por diversas vezes na sala de audiências e serviu sempre para alertar os “senhores doutores” que estavam a exceder-se na argumentação.

O título académico, que em Portugal é quase primeiro nome, ganha outra expressão numa sala de tribunal onde a justiça deve ser cega para tratar de igual modo o António e o Manuel, seja ele artesão ou advogado, engenheiro civil, reformado ou desempregado. Foi para isso que colocaram a venda à justiça!

Perguntar a uma testemunha se quer que a trate por doutor ou engenheiro, partindo do pressuposto de que quem está sentado à sua frente tem um título académico, apesar de não saber bem qual a área de formação ou a profissão, mereceu a resposta que teve: “Pedro, o meu nome é Pedro.”

Paula Brito

20 de abril de 2019

A rotina dos dias...

 

A foto foi tirada perto do meu bairro.

O meu bairro tem uma pastelaria e padaria que o perfuma todas as noites quando o forno se liga para cozer o pão nosso de cada dia. É normalmente por essa altura que saio para passear com o meu cão, que todos os dias me recebe com o mesmo entusiasmo: faça chuva ou faça sol, tenha sido uma jornada de alegrias ou de arrelias.

Foi num desses passeios que me deparei com este cenário: a árvore que o suporta é um pinheiro manso, que todos gostaríamos de ter na nossa sala, no Natal, repleto de enfeites, luzes e rodeado de prendas.

A natureza, indiferente às datas criadas pelo homem, quis trazer o Natal à primavera e presentear quem por ali passa e consegue olhar para lá da rotina dos dias...

Paula Brito

13 de abril de 2019

Portugal é Lisboa… o resto é paisagem

 

O interior anda nas bocas do mundo. Desde o fatídico Verão de 2017 que todos parecem ter descoberto que há Portugal para lá de Lisboa. Tudo porque uma grande parte da paisagem de repente ficou “vestida de preto até à alma”, para citar Eugénio de Andrade, o poeta beirão que tanto se inspirou na paisagem do interior, que levou ao mundo em tantas línguas diferentes.

O mais triste exemplo dessa descoberta veio da televisão pública quando, no conhecido programa “Prós e contras” sobre o quão Portugal se tornou apetecível para os estrangeiros, Fátima Campos Ferreira deixa escapar esta pérola.

“E não é só Portugal, até em Oleiros, lá para trás do sol-posto…”

A frase, espontânea, em directo, da experiente jornalista, diz muito do que vai na mente dos editores da maioria dos órgãos de comunicação social nacional – Portugal é Lisboa, o resto é paisagem…

Uma semana depois, o mesmo programa decidiu sair de Lisboa e descobrir onde fica esta zona do país que passou do anonimato para o triste estrelato. Os incêndios tinham entretanto devastado florestas, casas, carros e sobretudo ceifado vidas, onde se pensava que já não morava ninguém.

O programa “Prós e Contras” realizou-se, nessa semana, paredes meias com Oleiros, lá para trás de onde o sol se põe e aparentemente noutro país…

A frase, que se tornou adágio de tão certeira, mantem-se actual: “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”, a não ser que a paisagem esteja a arder ou coberta de neve o suficiente para encerrar estradas.

Paula Brito

13 de abril de 2019